Lula e a arte de desdizer-se

A candidatura do corrupto reabilitado entrou em nova fase, o controle de danos. Declarações recentes de Lula sobre aborto, regulação da mídia e coação pública a parlamentares exigiram retratações que, embora devidamente atenuadas como esclarecimentos, causaram um constrangimento que poderia ser evitado com facilidade: para voltar à cena do crime, Lula precisará mentir como de costume. Expressar sua verdadeira opinião sobre temas sensíveis aos brasileiros é autossabotagem e prejudica o projeto de tomada do poder idealizado pelos arquitetos do Mensalão e do Petrolão.

Até a imprensa correligionária já sinaliza certo desgaste. Uma coisa é despiorar a economia, outra é desmentir suas próprias manchetes: “Saúde pública: Lula defende direito ao aborto”, destaca, satisfeito, o editor; horas depois, no susto, entra em cena o diretor de redação: “Lula se declara contra o aborto”. Além de algum desconforto pelo conflito de (des)informação, o jornalismo militante ainda tem de lidar com a imensa frustração intelectual de não ver externadas — e bem recebidas — suas convicções particulares de progresso, justiça social e moralidade. A vida na bolha é mais solitária do que aparenta, talvez, por isso, ninguém solte a mão de ninguém

Agradecer à natureza pela criação de um vírus mortal e não ser cancelado pelos moralistas de teclado é uma proeza e tanto

Mas o consórcio que se prepare, porque o criminoso descondenado é habilidoso em desdizer-se. Quem não se lembra da sua entusiasmada celebração à covid-19, quando do anúncio dos primeiros mil óbitos em território nacional:

Ainda bem que a natureza contra a vontade da humanidade criou esse monstro chamado coronavírus, porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem — que os cegos comecem a enxergar — que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises.” Ao se ver obrigado a comentar sua frase “totalmente infeliz”, Lula lamentou:

Eu, na verdade, se tivesse falando ‘infelizmente’ em vez de ‘ainda bem’…” — nesse caso, a colocação faria ainda menos sentido; mas Lula, experiente, se saiu com a clássica: “Se algumas pessoas ficaram ofendidas, eu peço desculpas”. Funcionou. A imprensa, que sequer havia ficado ofendida, perdoou no ato: as escusas receberam mais destaque que a própria declaração, e a ode de Lula à pandemia nunca mais veio à tona.

Agradecer à natureza pela criação de um vírus mortal e não ser cancelado pelos moralistas de teclado é uma proeza e tanto, mas nada que se compare ao cavalo de pau retórico mais recente do antigo hóspede da Polícia Federal sobre a legalização do aborto:

“Se todo ser humano do planeta Terra quisesse ter o padrão de vida de um trabalhador alemão[…], seria necessário que o planeta Terra fosse quatro vezes maior do que ele é.

Ou seja, significa que nós vamos ter que balizar um certo padrão pra humanidade que está vivendo hoje. E é isso que nós reivindicamos, é isso que nós pregamos.” 

“É preciso estabelecer um padrão, que seja mínimo, pra que todo mundo possa viver bem. Aqui no Brasil, por exemplo, as mulheres pobres morrem tentando fazer aborto, porque é proibido; o aborto é ilegal.

A madame, ela pode fazer um aborto em Paris; ela pode ir pra Berlim procurar uma boa clínica e fazer um aborto. Aqui no Brasil, ela não faz [aborto] porque é proibido, quando na verdade deveria ser transformado em uma questão de saúde pública e todo mundo ter direito, e não ter vergonha. Eu não quero ter meu filho, eu vou cuidar de não ter meu filho” — matando o filho!?…

As palavras não comportam outra interpretação: Lula defendeu a legalização do aborto e o fez sem demonstrar qualquer preocupação de ordem ética com o ato de interromper a gravidez, eliminando uma vida humana em desenvolvimento. Num país em que 75% da população é contra o aborto ou, pelo menos, contra mudanças na legislação sobre o tema (dados do Datafolha), a declaração peremptória de Lula a favor da legalização seria irretratável… não fosse este país o Brasil e não fosse o autor da fala o político de estimação da velha imprensa:

A única coisa que eu deixei de falar na fala que eu disse [sic] é que eu sou contra o aborto. Eu tenho cinco filhos, oito netos e uma bisneta. Eu sou contra o aborto. O que eu disse é que é preciso transformar essa questão do aborto numa questão de saúde pública” — realmente, Lula propôs uma política de saúde pública que torne o aborto acessível, como forma de “controle de natalidade” para a população mais pobre. Afinal, segundo ele, a madame já aborta na Europa e o planeta Terra não possui os recursos necessários para garantir qualidade de vida para todos que nele habitam.

Tentando concatenar frases tão contraditórias sobre o mesmo tópico, podemos especular que Lula é a favor do aborto para os outros, especialmente os mais humildes, que não podem interromper sua gravidez em Paris e, assim, superlotam o mundo. Contudo, a vida da sua prole é inviolável: Lula é contra interromper as vidas humanas que lhe interessam.

De fato, se quiser ser eleito, é melhor Lula retornar aos seus velhos hábitos e parar de dizer a verdade sobre o que pensa. Desdizer-se é uma arte pouco apreciada.


Caio Coppolla é comentarista político e apresentador do Boletim Coppolla

Leia também “A terceira via e o povo bestializado”

O post Lula e a arte de desdizer-se apareceu primeiro em Revista Oeste.

Fonte: Caio Copolla – Revista Oeste

Obrigado por acompanhar nossas publicações. Nosso compromisso é trazer informação com seriedade, clareza e responsabilidade, mantendo você sempre bem informado sobre os principais acontecimentos que impactam nossa cidade, região e o Brasil. Continue nos acompanhando e participe deixando sua opinião — sua voz é essencial para construirmos juntos um jornalismo mais próximo do leitor.

Ismael Martins de Souza Costa Xavier

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur.

The most complete solution for web publishing

Fique sempre com a gente! Nosso jornal traz informação em tempo real, com credibilidade e proximidade. Acompanhe, compartilhe e faça parte dessa história.

Agradecemos a você, leitor, por nos acompanhar e confiar em nosso trabalho. É a sua presença que nos motiva a seguir levando informação com seriedade, clareza e compromisso. Seguiremos juntos, sempre em busca da verdade e da notícia que faz diferença no seu dia a dia.

Jornalista:

Compartilhe esta postagem:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *