Títulos de empresas vistas como mais vulneráveis pagam até IPCA mais 20% no mercado secundário

As notícias corporativas recentes têm alimentado uma sensação de inquietude entre os investidores da renda fixa corporativa. A desconfiança recai principalmente sobre as empresas mais endividadas, como indicam as taxas vistas no mercado secundário de crédito privado.

A sequência de eventos pesa. Uma atrás da outra vieram notícias como as recuperações judiciais da Azul e da Ambipar, a queima de caixa e o impasse acionário na Braskem, a crise financeira da Raízen e a decretação de falência da Oi.

As preocupações levam muitos detentores de títulos de renda fixa, como debêntures, CRIs e CRAs, a querer se desfazer dos papéis vistos como mais arriscados com medo de amargar prejuízos. Na ponta compradora, os interessados pedem descontos cada vez maiores para ficar com esses papéis.

A debênture da Raízen com vencimento em junho de 2030 é um exemplo. O papel está sendo negociado no secundário com o rendimento de IPCA + 15% ao ano, segundo mostram os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Com o IPCA no patamar que o relatório Focus prevê para o final de 2025, essa taxa representa um rendimento anual de 19,55%. Em outros números, 142% do CDI – uma remuneração muito ao norte do que os CDBs mais rentáveis oferecem.

Outros títulos da companhia de energia, controlada pela Cosan e pela Shell, têm sido negociados em níveis muito próximos. As debêntures da Raízen com vencimentos em 2029 e 2032 alcançam remunerações de, respectivamente, IPCA + 14,52% e 14,46% anuais.

Taxas de IPCA mais 20% ao ano

Entre os papéis com retornos atrelados ao IPCA, os da Vamos, do grupo Simpar, também refletem cautela entre os investidores. As debêntures com vencimentos em junho de 2031 e outubro do mesmo ano têm alcançado taxas de IPCA + 13,16% e 11,97% ao ano. Outra empresa da holding, a Movida, tem um título com prazo de 2028 e remuneração de IPCA + 12,43% ao ano, no secundário.

Já no caso das debêntures que acompanham a variação do CDI e pagam uma taxa extra, o CDI+, há casos como os títulos da CSN com vencimentos em 2027 e 2028, com remunerações de CDI+ 9,68% e 10,14% ao ano. No momento, com o CDI em 15% ao ano, os retornos alcançam de 24,68% a 25,14% anuais – ou seja: 180% e 183% do CDI.

Debêntures da operadora de viagens CVC também têm alcançado taxas elevadas no secundário. O papel com vencimento em 2028 está com um preço que equivale a CDI + 3,89%. É uma taxa bem próxima do títulos dos laboratórios Dasa com prazo até 2031, que pode ser encontrado com retorno de CDI + 4,17%.

Outros papéis com retornos muito elevados são as debêntures da Kora Saúde com vencimento em 2030 oferece retorno de CDI + 8,94% e a da Movida de 2027 com taxa de CDI + 3,93%.

Entre os certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA), a Raízen também tem sido um destaque de descontos elevados de preços no mercado secundário. O CRA da companhia de energia com vencimento em julho de 2029 tem sido oferecido com uma remuneração de IPCA + 13,34%.

O campeão de descontos, porém, é a Braskem. Vários papéis da petroquímica alcançam retornos acima de 20% ao ano, caso do CRA com vencimento em 2028 que está sendo negociado no secundário por IPCA + 20,86% – ou 152% do CDI.

A Dasa também faz parte das empresas com títulos de renda fixa vendidos com descontos altos no secundário. Um CRI do laboratório, por exemplo, com prazo em 2029 está sendo negociado a IPCA + 12,33% nop secundário.

No secundário, taxas altas significam descontos

O mercado secundário é o ambiente onde os detentores de títulos já emitidos vendem os papéis antes dos vencimentos. Os títulos são comercializados por meio das corretoras. É um processo semelhante ao do mercado de carros usados, onde o dono do veículo pode tanto deixar em consignação na vitrine da loja, quanto vender para a própria concessionária, que, depois, negocia com lucro.

No caso dos investimentos, para passar o título para frente neste momento, é preciso oferecer uma taxa mais alta do que aquela pela qual o investidor comprou o papel – daí os retornos oferecidos de até IPCA + 20%.

Essa nova taxa é obtida a partir de um desconto sobre o preço pago na emissão. Ou seja, quanto maior a remuneração no secundário, maior o desconto oferecido. Nesse sentido, taxas tão altas indicam que os riscos percebidos pelos investidores sobre a empresa subiram na mesma proporção.

Um cenário nebuloso

O caso da Braskem pode ser visto como emblemático. A companhia vive um impasse sobre a venda de controle que paralisa os investimentos e mantém a empresa queimando caixa para se manter.

A agência de classificação de risco de crédito Fitch estima um consumo de caixa de R$ 3,5 bilhões em 2025 e R$ 2 bilhões em 2026, além de desembolsos bilionários relacionados ao afundamento do solo em Alagoas. Na visão da Fitch, a Braskem pode ficar sem recursos em 2026 para lidar com dívidas que vencem a partir de 2028. 

A petroquímica reportou aumento do endividamento e prejuízo de R$ 26 milhões no terceiro trimestre do ano. A alavancagem mais que dobrou em relação ao registrado um ano atrás: a relação entre dívida líquida e Ebitda ficou em 14,76 vezes, ante 6,08 vezes no terceiro trimestre de 2024.

A deterioração da estrutura de capital da Braskem tem origem na disputa pelo seu futuro. O controle da petroquímica está hoje no centro de uma queda de braço entre bancos credores, a gestora IG4, o empresário Nelson Tanure, a Petrobras e a própria Novonor (ex-Odebrecht).

Uma dívida de R$ 50 bilhões

Já os títulos de dívida da Raízen registraram perdas de quase 20% nas últimas semanas. A joint venture entre Cosan e Shell enfrenta dificuldades em meio a custos crescentes, safras fracas e apostas que ainda nnao deram retorno como o etanol de biomassa e o combustível verde para aviação.

A onda de vendas de títulos da empresa no secundário ocorre na esteira dos eventos da Ambipar e da Braskem. Muitos investidores querem evitar sofrer perdas como aquelas vividas com os papéis da companhia de soluções ambientais e da petroquímica.

A dívida líquida avançou 56% no fim do primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 49,2 bilhões. Já o custo do serviço da dívida somou R$ 1,62 bilhão no período — o equivalente a cerca de 86% do ebitda (lucro operacional) do grupo.

A Cosan, co-controladora da Raízen, passou a sinalizar desde a semana passada para a possibilidade de capitalizar a empresa de energia, como forma de reduzir o endividamento. Uma parcela da capitalização de mais de R$ 10 bilhões da própria Cosan, realizada em novembro, poderia ser utilizada para amortizar parte das dívidas da joint venture. A Shell também indicou a possibiliddde de aportar até US$ 1 bilhão ou cerca de R$ 5,3 bilhões. Apesar das notícias positivas, por enquanto, nenhum passo concreto foi tomado.

A temperatura do momento

O alto endividamento e os desafios operacionais são os principais motivos para a desconfiança dos investidores sobre as companhias. São os casos da Dasa, da CVC e do grupo Simpar, controlador de empresas como Movida, Vamos e JSL.

A Simpar, por exemplo, realizou quase 20 aquisições 2020 e 2022. Neste ano, a holding mudou a rota da busca por crescimento para um esforço em reduzir o endividamento.

Já a Dasa viu seu valor de mercado derreter 98% em cinco anos. O grupo de saúde tem um histórico semelhante ao da Simpar, com um crescimento baseado em aquisições. Foram 30 entre 2019 e 2022, o que acelerou o endividamento.

A CVC, por sua vez, enfrenta um quadro de forte concorrência digital e ainda se recupera do período de isolamento da pandemia, quando teve de recorrer a uma série de capitalizações.

Fonte: Invest News

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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