Os ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Federal Reserve “assustam” e precarizam a independência da instituição, segundo análise do professor de Economia do Insper, Roberto Dumas, ao WW Especial.
As tentativas de intervenção de Trump, afirma Dumas, “afetam a política externa também” porque “implica que você não vai mais saber como precificar títulos públicos e corporativos.”
A relação de Trump e Powell teve uma forte piora desde o primeiro mandato do republicano na Casa Branca. De um homem de confiança do governo, Powell passou a ser ofendido e fortemente criticado por sua condução da política monetária americana.
Trump o apelidou de “senhor atrasado”, mas já o chamou de “babaca” e “velho”. Na mais recente investida contra Powell, procuradores abriram uma investigação criminal contra ele e contra o Fed por causa de uma reforma bilionária nos prédios da autarquia.
Com isso, Powell respondeu às provocações da Casa Branca pela primeira vez. Em um pronunciamento de dois minutos, ele se defendeu e afirmou que a investigação se trata de uma tentativa de intimidação.
Dumas pontua que essa confusão, além de dificultar a precificação de títulos, “traz uma precarização na independência do Federal Reserve”.
Mas a confusão na economia americana vai além de ataques ao BC. Ao WW Especial, o professor do Insper cita também as tarifas e a peça orçamentária que Trump apelidou de “One Big Beautiful Bill” como formas de instabilidade econômica.
No âmbito comercial, o especialista afirma que o vai-e-vem tarifário “causa uma bruta incerteza econômica mundial” e reduz a capacidade de crescimento mundial, “destruindo cadeias logísticas”.
Em um relatório de novembro de 2025, o “The Budget Lab”, da Universidade de Yale, estima que a tarifa média americana está em 16,8% – no maior nível dos últimos 90 anos.
Trump justifica a medida, especialmente, como uma tentativa de impulsionar a indústria dos Estados Unidos – afetada por um grande fluxo de importação de produtos baratos e um crescente nível de automação.
“‘Tarifas’ é a minha palavra favorita”, disse Trump durante discurso em Detroit no dia 13 de janeiro de 2026. Detroit é a capital do estado de Michigan e era um grande centro industrial, principalmente automotivo, mas passou por uma forte desaceleração econômica e desemprego.
O resultado da política comercial, no entanto, foi uma queda no trabalho de manufatura ao longo do último ano e um aumento de preços de alguns produtos – como o café e carne.
E isso ressoou mal na população. Segundo pesquisa do instituto YouGov em parceria com a revista The Economist, metade dos americanos avalia que a economia do país está piorando.
Já a peça orçamentária foi aprovada em julho e foi o principal projeto de governo no Congresso em 2025. O megaprojeto ampliou isenções fiscais feitas por Trump em seu primeiro mandato, aumentou gastos federais com o exército e força de imigração e realizou cortes em programas sociais.
O Escritório de Orçamento do Congresso estima que a Big Beautiful Bill vai gerar um déficit de US$ 3,4 trilhões em 10 anos.
Dumas afirma que, com isso, os Estados Unidos terão uma piora no déficit fiscal – ao mesmo tempo que apresenta um prejuízo em conta corrente. Esse fenômeno é conhecido como “déficit gêmeos”. “Se você gasta demais e não produz, se você poupa pouco e investe e consome demais, você vai ter déficit em conta corrente”, explica.
“O problema é saber até que ponto Trump vai assumir que isso é uma identidade macroeconômica ou, então, dobrar a aposta e colocar mais tarifa”, finaliza.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
Conheça o Clube de Membros da CNN Brasil no YouTube. Ao se cadastrar, você garante acesso antecipado à íntegra da edição já às sextas-feiras, além de cortes exclusivos e conteúdos de bastidores do programa




