A Memed queimou caixa por 14 anos. Agora tem lucro e mira R$ 100 milhões em receita

Bloomberg Línea — Quando Rodolfo Chung assumiu a Memed há dois anos e meio, a empresa queimava milhões de reais por mês. Em junho do ano passado, o negócio chegou ao breakeven e opera com lucro desde então.

Os números acompanham uma transição no modelo de negócio da startup, que passou a utilizar a sua plataforma gratuita de prescrição de medicamentos para se tornar um canal de publicidade para a indústria farmacêutica.

A Memed, que completou 14 anos em 2024, domina entre 60% e 70% do mercado de prescrições digitais no Brasil. Mas esse mercado representa apenas 15% de todas as prescrições feitas no país — o grande volume ainda vem em papel, Word ou PDF anexado em email.

“Estimamos 1 bilhão de prescrições por ano no Brasil. Quando isso virar 100% digital, o mercado da Memed pode crescer mais de seis vezes”, diz Chung. Atualmente, a plataforma processa 100 milhões de prescrições digitais.

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A empresa foi fundada pelos irmãos Ricardo e Rafael Moraes e por Marcel Ribeiro, que deixaram a operação em 2021, quando a Memed foi adquirida por R$ 300 milhões pela DNA Capital, gestora brasileira especializada em negócios de saúde.

A transação deu saída também para fundos investidores Redpoint eVentures, Monashees e Qualcomm Ventures, que tinham colocado algo em torno de R$ 33 milhões.

Substituindo o ‘pastinha’

Na passagem de bastão, a Memed encontrou na indústria farmacêutica a fonte para gerar receita para o negócio, que por mais de uma década apenas queimou caixa.

A empresa oferece acesso a uma base ativa de mais de 150.000 médicos, que são impactados por anúncios e informações de novos medicamentos e os seus benefícios quando o profissional está usando a plataforma de prescrição.

A meta é de crescer esse número para 200.000 médicos até o fim do ano. Segundo projeção do estudo Demografia Médica 2025, esperava-se que o Brasil terminasse o ano com mais de 635.000 médicos.

A indústria farmacêutica brasileira gasta cerca de R$ 12 bilhões por ano em propaganda médica, segundo estimativas de mercado. A estratégia, basicamente, usa propagandistas que visitam consultórios, num modelo tradicional que persiste por décadas.

Assim como procura contribuir para a migração das receitas para o digital, a Memed pretende fazer o mesmo com o marketing direcionado aos médicos.

“Nos Estados Unidos, 20% da verba de propaganda médica já é digital. No Brasil, estimamos 1%”, diz Chung, que fez carreira na Ambev, no LTS Investments, fundo de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, e foi ex-CEO do Zé Delivery.

“É nessa hora de grandeza o potencial que temos para crescer. Nós estamos só no começo aqui.”

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Segundo o executivo, mais de 100 farmacêuticas já usam a plataforma como canal de comunicação com os médicos. O próximo passo está no ganho de escala do serviço.

“Nós estamos falando que 10% das prescrições digitais do Brasil são feitas na Memed e nós estamos neste momento de acelerar esse crescimento. Ao provar que o retorno de investimento é muito positivo, eu ganho espaço dentro da verba dele até o dia que a própria verba vai aumentar”, afirma Chung.

Os números internos, segundo o CEO, indicam retornos médios dos investimentos publicitários, o conhecido ROI, entre três e quatro vezes o capital aportado.

A consolidação do modelo de negócio nos últimos anos tem feito a plataforma dobrar de tamanho ano a ano. Para 2026, a estimativa é de manter o ritmo e fechar o ano com R$ 100 milhões em receita. A empresa não abre os valores totais.

Novas contratações

A expansão será acompanhada pela contratação de novos profissionais, saindo dos 130 atuais para 180 em dezembro. “Como estou no começo da tese e ainda tem muita coisa pra fazer, vou sempre reinvestir com tudo que eu gerar de excedente. Do breakeven para cá, saímos de 90 para 130 e eu estou com 50 vagas em aberto”, afirma Chung.

As contratações são focadas em profissionais de tecnologia e produtos para um novo passo na estratégia. A Memed pretende ir além das prescrições médicas e funcionar como um meio para os médicos possam acompanhar a jornada de tratamento. de aumentar os investimentos em R$ 30 milhões no desenvolvimento de soluções para o médico em 2026

Hoje, muitas vezes os pacientes deixam de tomar as medicações logo após a melhora dos sintomas. Ou começa a tomar GLP-1, as famosas canelas emagrecedoras, mas abandona após dois meses porque é caro e sofre com os efeitos colaterais.

“Hoje, o médico prescreve e depois não sabe se o paciente seguiu o tratamento”, conta. “O Brasil tem uma das menores taxas de adesão ao tratamento do mundo. Estimamos que 54% dos tratamentos não são seguidos.”

A ideia é que a plataforma desenvolva ferramentas que contribuam para monitorar a adesão a tratamento, ofereçam suporte e engajem os pacientes. E, com isso, a Memed saia de um canal de lista de medicamentos para um hub de acompanhamento.

Ao longo do ano, a empresa prevê aumentar os investimentos para o desenvolvimento de soluções para o médico em R$ 30 milhões na comparação com o ano de 2025. A Memed não abriu o valor investido no ano passado.

As primeiras peças desse futuro devem começar a ser encaixadas na plataforma ainda este ano.

“Isso é a visão de longo prazo, para onde estamos preparando a empresa. Estamos nos preparando financeira e estrategicamente para evoluir o negócio”, diz o CEO.

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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