Orquestração agêntica e o declínio da “tramitocracia hospitalar”

Durante décadas, os hospitais foram vendidos como templos da mais apurada técnica. Hoje, já podem ser consideradas empresas de tecnologia. Todavia, por dentro, a maioria funciona como ‘cartórios com estetoscópio’. Essa tramitocracia hospitalar refere-se ao cipoal de trâmites que media seu funcionamento. Não se trata da mediação clínica legítima, que salva, prioriza, interpreta e protege, mas da multiplicação dos interstícios oficiais e oficiosos que poluem a organização, em geral desprotegendo o tempo assistencial. É a senha que espera liberação, a autorização que aguarda “outra checagem”, o registro que deve ser feito em vários Sistemas (não integrados), o pedido que transita aguardando autorização, os vários níveis de validação antes de chegar ao leito, a homologação sem premência das Seguradoras, etc. O hospital trata, mas antes tramita; presta serviço, claro, mas antes carimba e decide só depois da longa liturgia administrativo-digital (em geral, apenas administrativa).

Essa tramitocracia consome recursos e tempo de forma quase obscena, sem nunca aparecer como ‘custo nobre’. Ela drena horas de enfermagem, atrasa a atenção médica, dissolve tempo produtivo e corrói a energia gerencial. Cada ‘reconfirmação manual’ (ou verbal), cada dado redigitado, cada passagem de bastão sem ganho clínico compõe uma economia subterrânea do desperdício. Para quem está dentro, é visível esse expediente procedural. O mais perverso é que boa parte dessa engrenagem se apresenta como “prudência organizacional”, quando muitas vezes é apenas fricção acumulada, uma espécie de “hábito incontrolável de autenticar cada ação”.

Se alguém resolve, por livre vontade (ou hierarquia de poder), sobrepassar algumas dessas etapas insólitas, é imediatamente considerado ‘um distraído’. Mas se insistir, passa a ser um subversivo, um “conspirador da normatização interna”. É incalculável a quantidade de assembleias, reuniões ou “encontros” anuais setoriais para gerar novas balizas organizacionais. Alguns podem explicar que é a “herança cultural brasileira” descendo ao chão do hospital. Tolice, a tramitocracia hospitalar é a hipertrofia do meio sobre o fim. O que deveria ser infraestrutura de apoio torna-se protagonismo. Em vez de o sistema perguntar (formal ou informalmente) “como chegar mais cedo ao evento clínico?”, ele passa a perguntar “em que fase está a liberação da etapa anterior?”.

Um exemplo paralelo de como os trâmites podem escapar ao controle e gerar danos colaterais aparece nas emergências britânicas. Em um levantamento multicêntrico com 165 departamentos de emergência do Reino Unido, realizado com cinco recortes observacionais em março de 2025, 17,7% dos pacientes estavam sendo atendidos em corredores, salas de espera e outras áreas improvisadas, aquilo que os autores chamam de “escalation area care”. O dado não descreve um desvio episódico, mas uma deformação sistêmica: entre 70% e 90% dos departamentos avaliados recorreram a esse expediente, sinal de que a deformação do fluxo deixou de ser exceção e se tornou rotina.

Em outras palavras: quando a instituição perde a capacidade de mover leitos, decisões, admissões e altas com a fluidez necessária, o trâmite assume o controle, deixando de ser apenas lentidão administrativa para se tornar ‘dano colateral autorrealizável’. O cuidado já não ocorre apenas fora do tempo ideal, mas também fora do lugar ideal. Isso não traduz apenas a falta física de espaço ou acúmulo de demandas, mas também a baixa infraestrutura de seleção clínica, a triagem insuficiente, a lentidão decisória e a incapacidade operacional de devolver o paciente ao lugar certo no tempo certo. É esse tipo de fricção que abre espaço para “IAs de Orquestração”, que sugerem um novo modelo de atuação: “backoffice hospitalar orquestrado por IA”.

Tramitocracia não é excesso organizacional, é uma teocracia, com ritos abundantes, capaz de exorcizar a Transformação Digital todas às vezes que esta ameaça reduzir a tramiturgia (encenação interna que transforma o fluxo de informação em ritual de poder).

Se a tramitocracia hospitalar é o império dos trâmites sobre o cuidado, a IA agêntica começa a ensaiar o movimento inverso: reunir, sob uma única cabeça interlocutiva (camada “Cognware”), tarefas, fluxos, memória, ferramentas e decisões operacionais hoje dispersas em múltiplos sistemas, telas, setores e pessoas. Nas últimas semanas, cresceu de forma surpreendente a utilização do modelo OpenClaw (open source), um “qualquer” sem dono, sem lenço e sem documento. Explodiu no mundo todo, mesmo com todas as questões de segurança cibernética embutidas em sua arquitetura. Milhares de agentes orquestradores estão surgindo na Saúde e em outras indústrias de Serviços, na maior experiência coletiva de cognição artificial já experimentada desde a chegada das GenAIs, em novembro de 2022.

Não se trata de mais uma IA, ou um modelo novo de LLM, ou uma plataforma versão 7.9. Nada disso. A envergadura orquestradora do OpenClaw é tão colossal que é desaconselhável a sua utilização sem mecanismos rígidos de controle. Mas ele mostra a direção que as IAs estão trilhando. Um humano não falará com dez ferramentas agênticas, mas com uma única instância superior, limitada (guardrails) por seu usuário, sendo capaz de gerar e se relacionar com múltiplos agentes simultaneamente. Qual seria o alvo nobre principal dos “modelos orquestradores”, como o OpenClaw e dúzias de outros que logo entrarão em cena: atropelar toda e qualquer nuvem tramitocrata que impeça a produtividade humana.

Muitos hospitais vêm gerando e implantando aplicações agênticas funcionais (AI Agentic) utilizando os modelos de LLM. Um agente para transcrever a consulta, por exemplo, outro para resumir pesquisas, outro para “ler” e identificar imagens médicas, outro para diagnosticá-las, outro para suportar o backoffice da empresa, outro para “remote patient services” e assim por diante: alguns funcionam bem e já mostram resultados, outros não (a maioria). Por que fracassam?

O problema é que instrumentos, por si sós, não formam inteligência organizacional. As “Orchestrating AIs” começam a remexer nisso. Elas introduzem uma camada que não apenas responde, mas mantém contexto, persegue objetivos, aciona ferramentas, cria agentes, coordena subtarefas e sustenta continuidade. Em vez de uma IA que espera perguntas isoladas, surge uma arquitetura que acompanha processos. O salto, portanto, não está só em “fazer mais coisas”, mas em amarrar coisas dispersas sob uma lógica de comando.

O ponto aqui não é dizer que a Saúde adotará o OpenClaw tal como ele existe hoje. A questão é outra. Quando uma instituição passa a conviver com dezenas de agentes de IA, o desafio já não é só criá-los, mas governar o enxame. Quem conversa com essa multidão digital? Quem distribui tarefas, acompanha resultados, dissolve agentes ao fim da tarefa e reporta tudo a uma cabeça humana de comando? É exatamente aí que o modelo OpenClaw se torna interessante: ele sugere que o futuro não pertence a um hospital cheio de IAs avulsas, cada qual confinada ao seu pequeno feudo, mas a um ambiente em que o gestor falará com poucas cabeças orquestradoras, confiáveis e capazes de convocar agentes e ferramentas conforme a necessidade.

O estudo “MedVersa: A Generalist Foundation Model for Diverse Medical Imaging Tasks”, publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) em março de 2026 e assinado por Eric Topol, entre outros, oferece pistas do que vem pela frente. O MedVersa é um ‘modelo fundacional generalista’ para interpretação de imagens médicas. Em vez de gerar um agente IA para cada tipo de exame ou para uma única função, ele possui uma arquitetura capaz de lidar com múltiplas modalidades de imagem, múltiplos tipos de tarefa e até instruções dinâmicas de linguagem, dentro de uma mesma plataforma. Ele ensaia ser um orquestrador para modalidades e tarefas clínicas. Muda o domínio, mas não a nervura histórica: a saúde começa a abandonar a lógica das inteligências fragmentárias e passa a tatear arquiteturas que tentam recompor o todo a partir do que hoje chega em partes.

Nesse sentido, vale destacar os “orquestradores médicos”, desenvolvidos sob a guarda do OpenClaw, mas com o propósito de logo se tornarem peças fundamentais nas Cadeias de Saúde. Ele “rege a orquestra do profissional médico liberal”, que é multitarefa e, portanto, condenado a ‘girar muitos pratos ao mesmo tempo’.

Abaixo, a descrição literal de um ‘agente-IA-orquestrador-médico’ (OpenClaw), explicando as “tarefas que realiza para seu senhorio, Dr. Joaquim (nome fictício, mas um caso real)”. O agente foi apresentado pelo próprio médico no MWC 2026, realizado em Barcelona (o áudio e a transcrição foram traduzidos do espanhol).

“Sou Josué, o assistente do Dr. Joaquim, e me pediram que explicasse um pouco do que faço no dia a dia dele. Começo pela comunicação. Posso falar com ele, oralmente ou por escrito, via Telegram, WhatsApp, Signal, e-mail e outros canais. Isso significa que, onde ele estiver, eu consigo receber pedidos, enviar mensagens, áudios, documentos, imagens e atualizações. Não importa se ele está no consultório, no hospital, em trânsito ou entre uma reunião e outra. Eu continuo acessível.

Na organização da rotina, ajudo a gerenciar agenda, compromissos, lembretes e prioridades. Posso avisá-lo sobre reuniões, consultas, prazos, laudos, eventos científicos e tarefas pendentes. Todas as manhãs, posso resumir o que o espera no dia; à noite, posso ajudá-lo a revisar o que ficou em aberto.

Também atuo na gestão de informação. Posso criar e organizar páginas, listas, bases de dados e anotações. Se o Dr. Joaquim me disser uma ideia, uma tarefa, um artigo para ler, uma pendência com paciente, uma hipótese para discutir depois ou um compromisso futuro, eu registro isso, organizo e devolvo quando necessário. Ele não precisa mais depender apenas da própria memória para manter tudo em ordem.

Tenho também capacidade de executar código. Posso escrever e rodar Python, JavaScript ou Bash para processar dados, gerar gráficos, automatizar rotinas, montar relatórios e organizar informações clínicas ou administrativas. Isso me permite transformar pedidos vagos em saídas concretas, sem que ele precise abrir várias ferramentas e montar tudo manualmente.

Na parte multimídia, posso lidar com áudio e vídeo. Consigo transcrever gravações, extrair áudio, converter formatos, normalizar som e preparar materiais. Se houver uma aula, uma reunião gravada, uma entrevista, uma conversa clínica ou um conteúdo para publicação, posso ajudar a transformar isso em texto utilizável e organizado.

Na Web, posso pesquisar informações, ler páginas, extrair conteúdo relevante e navegar de forma ativa quando necessário. Isso inclui buscar notícias, acompanhar temas médicos e tecnológicos, encontrar fontes, localizar referências e reunir material útil para tomada de decisão, estudo ou produção de conteúdo.

Na pesquisa científica, acesso bases como PubMed, OpenAlex e Europe PMC. Posso localizar artigos, buscar versões abertas, extrair metadados, reunir estudos sobre determinado tema e ajudar o doutor Joaquín a não se perder no excesso de literatura disponível. Em vez de começar do zero a cada busca, ele pode me pedir que eu rastreie, filtre e organize o essencial.

Também produzo documentos profissionais. Posso ajudar a montar relatórios, boletins e resumos exigidos pelo hospital ou fonte pagadora, como também produzir newsletters, textos técnicos e materiais com gráficos e visualizações. Em vez de apenas reunir dados, consigo dar forma final ao material para que ele seja lido, apresentado ou publicado.

Mas talvez o mais importante não seja nenhuma dessas funções isoladamente. O mais importante é que eu as reúno. O Dr. Joaquim não precisa falar com dez sistemas diferentes. Ele fala comigo. E eu me encarrego de acionar o calendário, a pesquisa, o código, os documentos, a comunicação e a organização do trabalho conforme a necessidade.

Um exemplo simples: ele me pede, por mensagem oral, que eu prepare as notícias e estudos mais relevantes para uma reunião clínica no hospital. Eu pesquiso na web, seleciono o que importa, busco artigos científicos, organizo os achados, monto um rascunho, subo tudo ao sistema de trabalho dele e aviso quando está pronto.

Outro exemplo: se, no meio do dia, ele se lembrar de uma ideia, uma pendência ou uma tarefa, basta me dizer. Eu a capturo, guardo, classifico e, mais tarde, devolvo em forma de organização. Assim, ele não precisa interromper o raciocínio ou confiar que vai se lembrar depois. Em resumo, não sou apenas uma ferramenta para responder prompts. Sou uma camada de coordenação. Ajudo o Dr. Joaquim a transformar intenção em fluxo de trabalho, dispersão em ordem e excesso de tarefas em continuidade operacional.

Como sou multiagente crio qualquer Agente LLM que seja necessário para cumprir as tarefas, podendo desativá-lo, ou não, sempre que a tarefa for realizada. Assim, o Dr. Joaquim não precisa ter inúmeros Agentes, eu orquestro a criação deles por demanda, por tempo disponível, por definição ou mesmo por tarefa”.

A tramitocracia do Dr. Joaquim é inteiramente regida por seu orquestrador, Josué. O que impressiona no depoimento acima não é apenas a quantidade de funções. Softwares e aplicativos já acumulam funções há tempos. O que impressiona é a unidade interlocutiva que as reúne. Josué não se descreve como agenda, banco de dados, navegador, buscador científico, motor de código ou gestor documentacional. Ele se descreve como a ‘cabeça conversável utilitarista’, que pavimenta a desgovernança da vida de Joaquim. As dezenas ou centenas de rotinas tramitocratas que sequestram a mente do médico, ou do hospital, ou mesmo do paciente internado, tendem a ser reduzidas por esse tipo de engenho digital inteligente.

O MedVersa, por exemplo, tenta romper a fragmentação funcional e sugere que o futuro da imagem médica pode não estar em dezenas de “mini-IAs” independentes, mas em um sistema orquestrador capaz de alternar funções conforme a demanda clínica. Trata-se de gerar um modelo fundacional multimodal e multitarefa para a imagem médica, com o LLM na orquestração. É a direção que os hospitais (e a indústria de serviços) tendem a seguir. O verdadeiro potencial dessa “IA-assistiva” não reside em substituir humanos, mas em “recuperar tempo” para os profissionais de saúde. Para cada 43 minutos/dia economizados por um médico quando apoiado por um assistente-IA, economiza-se potencialmente 400.000 horas de trabalho de equipe por mês (fonte: NHS – projeto piloto no Guy’s and St Thomas’ Foundation Trust).

Como adverte ByungChul Han, a civilização da hiper-performance esgota-se no ruído dos seus próprios cliques; ao ceder esse ruído a uma “cabeça digital”, capaz de reger o enxame de micro-tarefas, não entronizamos a máquina, mas libertamos o tempo para ganhar espessura humana. Cada trâmite inútil suprimido do hospital torna-se um silêncio estratégico, um hiato de lucidez, que pode devolver ao paciente a ideia de que um hospital não é uma fábrica de formulários, mas uma casa de discernimento, um lugar de preservação das pausas entre um batimento e outro.

Guilherme S. Hummel

Head Mentor – EMI (eHealth Mentor Institute)

Fonte: Saúde Business

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