A trajetória de Oskar Metsavaht fugiu um pouco do que se espera de um garoto que gostava de skate e surf, filho de um médico e uma professora de História da Arte em Caxias do Sul (RS), nos anos 1960.
Da atuação na medicina para a projeção internacional como estilista e o título de Embaixador da Boa Vontade da Unesco para Sustentabilidade, ele vive se reinventando.
Hoje, encabeça uma rede poderosa focada em sustentabilidade e prova, a cada coleção, que o verdadeiro luxo está em não agredir a natureza.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Oskar, você é médico, artista e pode ser considerado atleta. Conte um pouco como arte, esporte e medicina sempre se misturaram em sua vida.
Meu pai fundou a Faculdade de Medicina de Caxias do Sul. Minha mãe fundou a Faculdade de Filosofia e História da Arte. Somos quatro irmãos, e duas foram para as áreas de artes plásticas e de cinema. Meu irmão e eu nos formamos médicos. Mas sempre fui, desde jovem, um artista, fazendo desenhos e pinturas bem abstratas. Meu pai nos ensinou a fotografar e filmar com Super 8 e a apurar o olhar. Quando minha mãe ensinava história da arte, eu fotografava os livros de arte para os slides de suas aulas. Gosto de ver o mundo a partir de um viewfinder [o visor das câmeras]. Minha educação artística foi na família, mas eu também adorava praticar surf e skate, fazia viagens acampando em Santa Catarina, surfava e pescava com meu irmão e meu pai. Depois, escolhi o Rio para fazer residência em medicina, para ficar perto do mar e poder praticar. Ia para o trabalho no hospital com a prancha em cima do carro ainda nos anos 1980.
Além de toda essa bagagem hereditária, a origem do seu sobrenome também tem a ver com o que você é. Conte mais sobre isso.
Meu nome Metsavaht quer dizer “guardião da floresta”. Os países nórdicos são muito ligados à natureza e à economia da floresta. Esse pensamento de sustentabilidade já é cultural na Europa e eu sempre achei, desde jovem, que devia proteger a natureza, embora ainda não tivesse relação com a Amazônia naquela época. Mas lia revistas como a National Geographic, procurava leituras e documentários de ecologia, expedições, exploração. Nasci nos anos 60 e os primeiros documentários que vi foram do Jacques Cousteau — eram raros, na época, filmes científicos e ao mesmo tempo artísticos. Aquilo era inovador, me conquistou, e passei a enxergar a ciência por meio da estética. Era ele, aliás, quem desenhava suas roupas de mergulho e isso também é inspirador. Um espírito renascentista.
“Sustentabilidade é inovação. E inovação leva tempo e é caro. O novo luxo não é o que brilha mais, é o que causa mais impacto social. E se nós, como sociedade, entendermos isso, vamos valorizá-lo como valorizamos outras coisas.”
Sim, você seguiu um caminho parecido no design, ao desenhar os casacos para neve de uma expedição ao Aconcágua. É curioso que esses casacos tenham sido criados em uma cidade tão tropical como o Rio…
Realmente, virei designer por conta da medicina. Durante a residência, eu, um amigo médico e uns alpinistas programamos uma expedição ao Aconcágua nos Andes. Era 1986. A Universidade então me propôs realizar uma pesquisa de condicionamento físico de alta montanha, onde há déficit de oxigênio, o que acabou me levando também a desenvolver roupas técnicas de alta montanha para o frio extremo, porque não tinha nada parecido no Brasil. Como eu já estudava o movimento do corpo humano, anatomia e ergonomia na faculdade, comecei a pesquisar sobre isotermia, respirabilidade, transpiração… Então comecei a desenhar e aquilo fluiu. Os casacos, além de terem funcionado muito bem tecnicamente, ficaram bonitos. Como a expedição teve sucesso na mídia nacional, amigos passaram a encomendar peças.
A Osklen nasceu desse processo de criação e por essa demanda?
Sim, mas levou um tempo. Eu era um jovem médico e não tinha ambições na moda. Porém, quando voltei de uma escalada ao Mont Blanc nos Alpes, durante um estágio em Medicina do Esporte em Paris, senti vontade de compartilhar o que havia feito em uma expedição científica e criativa. Queria mostrar minhas fotografias dessa aventura e aquele casaco que eu havia criado, orgulhoso de ter sido original e “Made in Brazil” em uma época que tudo se copiava de fora. Queria expressar o meu estilo de vida por meio de uma marca.
Então, em dezembro de 1989, lancei a minha marca Osklen, uma pequenina loja em Búzios, mistura do meu nome, o da minha então namorada, Milene, e do meu irmão Leonardo, que havia me ajudado a criar o primeiro casaco. Um ano depois, abri uma loja no Fashion Mall, querendo mostrar que esse estilo de vida ligado a esportes na natureza era também um luxo. Era o início dessa tendência atual da linha outdoors que várias marcas fazem hoje em dia. Sim, fui um dos precursores.
Quando você percebeu que não dava mais para atuar na medicina?
Meu irmão ortopedista veio trabalhar comigo no consultório e começou a se dedicar muito às pesquisas em Biocinética. Segui trabalhando como médico até 1997, com prestígio e sucesso. Mas, um dia, tocou o telefone no meu estúdio na Osklen e eu me vi pedindo para a secretária dizer que eu não podia atender. Foi ali que percebi que não dava mais para exercer a medicina assim, sem dedicação total aos pacientes. Mas a Osklen era ainda uma aventura. E meu pai me perguntava se eu iria trocar uma formação acadêmica de excelência para fazer roupas. Meu irmão me apoiou dizendo que eu nunca deixaria de ser médico e, se não desse certo na moda, eu poderia voltar à medicina. Senti um alívio muito grande. Foi só ali que eu tive tempo de olhar a Osklen como um negócio. Em 1999 consegui abrir a primeira loja em São Paulo.
O Brasil, nesse período, entrou em um movimento ascendente que despertou o interesse do resto do mundo. Como isso afetou seu trabalho na Osklen?
Essa ascensão durou de 1992 a 2016. Fui vendo o grande movimento de pessoas que começaram a vir para o Brasil e olhar para o país e seus símbolos, desde o chinelo até as fitinhas do Senhor do Bonfim, a cultura, a festa. Queria mostrar que o Brasil podia ter uma marca de luxo, ter qualidade, originalidade e essência da nossa cultura, mas com uma linguagem estética internacional. Nos anos 1990, com o início da globalização, começou o comportamento “crossover” cultural, e a moda passou a ser uma linguagem estética universal.
Foi com essa visão que construí o conceito e estilo cosmopolita da Osklen. Passei então a trabalhar na expansão internacional. Em 1996, criei a expressão “cool and brazilian” como uma forma de olharmos para nós mesmos, nossa cultura e ver o quanto éramos tão “cool” quanto outros países e culturas. Um manifesto de autoestima de nossas próprias marcas e criações. A Osklen atraía pessoas estrangeiras muito descoladas. Não existia mundo digital, mas a loja era um espaço de comunicação, de percepção, e eu gostava de trabalhar essa cenografia com nossos símbolos, eu diria que foi um segundo Manifesto Antropófago na nossa história.
“Design é criar uma camada sobre a pele para proteger o corpo. Moda é criar uma camada imagética, cultural, sobre o corpo humano. Faço ambos.”
Em que época o conceito de sustentabilidade entrou na sua vida?
No começo da década de 1990, existiam os projetos ecológicos de preservação e ecologia, mas era um tempo em que eu me sentia ingênuo em ser ativista. Foi Maurice Strong, o presidente da Rio92, quem trouxe o conceito de sustentabilidade para o Brasil. Foi ali que se percebeu que poderíamos usar recursos naturais se os mantivéssemos iguais ou melhores para as próximas gerações. Quando entendi isso, criamos um núcleo de pensadores que estavam preocupados com a mesma coisa. Em 1994, fiz a primeira expedição pela Amazônia e vi a riqueza de nossa biodiversidade e das culturas ancestrais, mas ao mesmo tempo o ataque do garimpo e das madeireiras. Pensei que não teria como vir de lá sem me transformar em um ativista. Eu estava começando a ver o mundo pelo prisma empresarial, mas voltando da Amazônia eu tive uma visão clara de que eu queria ser um dos protagonistas do movimento sustentável no mundo. E coloquei minha criatividade e marca como uma ponta de flecha para o século 21 que estava iniciando.
De fato você virou referência, se tornando, inclusive, o embaixador da Unesco no tema…
O conceito de sustentabilidade na produção de roupas foi inaugurado pela marca Patagônia, em 1992, que começou a fazer a reciclagem do poliéster. Isso me inspirou e comecei o primeiro projeto sustentável de moda no Nordeste, em 1998, uma fazenda de algodão orgânico em parceria com a Embrapa e a ONG Social Espla. Um projeto ambiental e também social de tirar as crianças do trabalho no campo, com o qual ganhei um prêmio. Antes, a linguagem da ecologia estava distante da sociedade, era exclusiva a meios acadêmicos, sociólogos e ambientalistas, e minha percepção era que, por meio da moda, poderíamos comunicar de uma forma mais cativante à sociedade. Aí vários projetos começaram a surgir e a Osklen virou uma antena.
Imagino que tudo tenha ficado tão grande que não foi possível manter dentro da grife apenas…
Sim, eu criei o “Instituto E”, que identifica materiais, comunidades e produtores. A letra E vem de Earth, Energy, Education, Environmental, Empowerment and Economics. Em 2004, o RLC Fashion Summit, em Milão, me convidou para falar sobre minha visão e práticas em sustentabilidade na moda e no luxo. Madame Chanel foi feminista e revolucionou a moda… a gente vai torcer o nariz para o luxo que ela se tornou? Moda é o reflexo dos tempos. Eu estava repetindo o que ela havia feito, mas com um ativismo em sustentabilidade.
Acredito que o verdadeiro luxo do século 21 é o encontro do saber fazer europeu, de qualidade e sofisticação, com criatividade e matéria-prima sustentável vindos do Brasil. Nossa biodiversidade e know-how, tanto tecnológico como de conhecimentos ancestrais, aliados a um design original, podem nos levar a líder desse movimento no mundo. Fui um dos fundadores do conceito de new luxury, porque realmente estava impactando positivamente tanto o setor da indústria da moda nacional e internacional quanto o socioambiental. Em 2011, virei embaixador da Boa Vontade da Unesco, e isso me deu asas.
Mas mesmo antes dessas asas, você já vinha em voo internacional. Como foi a expansão da Osklen nos anos 2000?
Pois é, a partir de 2004, abrimos quatro lojas em Portugal e três Osklen no Japão. Abri loja na Grécia, em Mykonos, atelier e lojas em Milão, Roma, showroom em Paris e Saint-Tropez no verão. Depois lojas em Genebra, Nova York e Miami, Punta del Este, Buenos Aires. Ser vendida em multimarcas no exterior é uma coisa; abrir lojas próprias em outros países, com culturas diferentes, partindo do Hemisfério Sul e sem punch econômico é complicado. A coisa mais difícil nesses 15 anos foi levar um conceito de Made in Brazil e falar de nossa cultura lá. Porém, conquistei pelo nosso conceito e estilo.
A loja de Ipanema, especialmente naquele momento do início dos anos 2000, é realmente um marco para a Osklen. Como isso aconteceu?
Eu digo que a primeira loja internacional da Osklen foi a de Ipanema. Marc Jacobs e Calvin Klein iam sempre lá. Mick Jagger, Naomi Campbell e Sting usavam Osklen e abraçaram a cultura do Brasil. O Mario Testino e o Michael Robert gostavam da marca porque podiam levar um pouco de Brasil com a qualidade que estavam acostumados. Eu consegui reconhecimento pela originalidade, design, qualidade internacional e conceito de marca que representava o “Brazilian Soul”. Naquela época, as marcas de luxo brasileiras reconhecidas internacionalmente eram Fasano, Osklen e H.Stern.
“É preciso ter uma linguagem para que as pessoas entendam que esse é o novo luxo e paguem por isso. Tem que democratizar a sustentabilidade? Sim. Mas para isso precisa ter escala, volume e cultura. Ou não adianta transformar.”
E seus filhos, como foi o envolvimento deles nos negócios?
Caetana fez faculdade de Design de Moda e trabalhava com a Osklen em NY. Na pandemia, a chamei pra ficar comigo aqui, trabalhando no hotel Janeiro [hotel para o qual ele criou o conceito e acabou sendo o controlador]. Em 2012, a Alpargatas adquiriu uma participação significativa da Osklen. Quando decidi comprar de volta junto com o grupo Dass, voltei a ter controle da direção estratégica e falei com Thomas e Felipe, que estudaram Design e Comunicação, se viriam trabalhar comigo e nossos executivos na Osklen. Dar continuidade, através dos seus próprios estilos de vida e cultura, ao legado da marca.
Você também transita bem pelas artes. Conte um pouco sobre a OM Art?
Eu tinha um estúdio dentro da Osklen, para quando sobrava tempo. Arte, para mim, é uma forma de expressão necessária e visceral. Fiz uma exposição em 2010 como artista. Depois de dois anos, fiz minha residência artística em Inhotim. Em 2016, fiz uma exposição no Museu Histórico da cidade do Rio, sobre a construção do Cristo Redentor, que virou uma das mostras oficiais das Olimpíadas. Fui me desenvolvendo com fotografia, pintura e vídeo-instalações e precisava de um espaço exclusivo para o meu estúdio de arte, independente do meu de design na Osklen. É meu espaço para respirar arte, ciência e filosofia.
Para encerrar, você poderia contar sobre o couro de pirarucu? Tem até uma história com a monarquia britânica…
Tudo começou em 2006, com um amigo meu que tinha um curtume. Eu havia visto um acessório feito de couro de salmão e li que esquimós usavam pele de peixe para seus calçados e bolsas. Mas meu projeto é de sustentabilidade na Amazônia e conheci um projeto na Ilha de Marajó. Queria usar o pirarucu como ponta de lança do conceito de new luxury.
Com as peças, ganhei um prêmio em Paris de sustentabilidade na moda, uma bolsa nossa faz parte do Museu V&A de Londres como um dos ícones da moda sustentável de luxo, fui convidado pela Anna Wintour para desfilar junto às grandes marcas de luxo internacionais no Vogue Green Carpet em NY e o Príncipe William levou uma bolsa, em 2025, para a Princesa Kate. Ou seja, naquela minha expedição à Amazônia em 1994, vi a riqueza de nossa biodiversidade e percebi que aquilo era um verdadeiro luxo do século 21. Mais de 30 anos depois, isso se confirma e fica na história da moda mundial.
*Christian Gebara é presidente da Vivo e diretor artístico da revista Velvet
Fonte: Neo Feed



