Calor excessivo pode reduzir até 15% a eficiência produtiva do rebanho

O estresse térmico tem provocado impactos na produtividade da pecuária, afetando o ganho de peso, a produção e a eficiência reprodutiva dos rebanhos. De acordo com as informações, as perdas podem variar entre 5% e 15% no desempenho produtivo, enquanto as taxas de concepção podem registrar reduções entre 20% e 50%.  

Segundo o médico veterinário da Biogénesis Bagó, Caio Borges, o problema ocorre quando a capacidade do animal de dissipar calor é superada pelas condições ambientais, principalmente em cenários de altas temperaturas, umidade elevada e radiação solar intensa.  

“Nessas situações, o organismo dos bovinos passa a acionar mecanismos fisiológicos para tentar manter o equilíbrio da temperatura corporal”, destacou o veterinário.  

Entre as principais reações estão o aumento das frequências respiratória e cardíaca, maior ingestão de água e a busca constante por áreas de sombra. Os animais também tendem a apresentar maior inquietação e reduzir o consumo de alimentos. 

“O organismo animal tenta se adaptar ao calor. Com isso ocorre aumento do metabolismo, que consome mais energia, e ao mesmo tempo o animal reduz a ingestão de alimentos, entrando em balanço energético negativo”, explica Borges. 

A redução no consumo alimentar gera déficit energético e favorece o estresse oxidativo, o que resulta em menor ganho de peso, queda na produção de leite e piora significativa da eficiência reprodutiva. 

A avaliação do risco de estresse térmico não depende apenas da temperatura ambiente. O indicador mais utilizado é o índice de temperatura e umidade conhecido como THI (Índice de Temperatura e Umidade), que considera também a umidade do ar. 

Na pecuária leiteira, perdas mensuráveis começam a ocorrer quando o índice varia entre 68 e 72. Já nos bovinos de corte, especialmente em animais zebuínos, o limiar costuma ser um pouco maior, mas pode se tornar crítico em sistemas intensivos, como confinamentos, ou em animais mais pesados quando o THI se aproxima de 74. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, as perdas associadas ao chamado estresse térmico ultrapassam 1,7 bilhão de dólares por ano. 

Além dos impactos produtivos, pesquisas recentes têm demonstrado que medidas simples de manejo podem reduzir significativamente os efeitos do calor sobre os bovinos.  

Estudo conduzido pela Minerva Foods em parceria com o Welfare Footprint Institute mostrou que a oferta adequada de sombra pode reduzir em cerca de 85% o tempo de exposição dos animais aos níveis mais severos de estresse térmico. 

A pesquisa foi publicada na revista científica Animals e analisou dados climáticos de 636 localidades produtoras de gado que integram a cadeia de abastecimento da companhia no Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai ao longo de cinco anos.  

A partir da aplicação do Welfare Footprint Framework, os pesquisadores converteram a exposição ao calor em horas acumuladas de desconforto térmico vividas pelos animais ao longo do ano. 

De acordo com o estudo, a adoção de áreas sombreadas pode gerar retorno líquido estimado entre 12 e 16 dólares por animal, resultado da maior eficiência alimentar e do melhor ganho de peso, mesmo quando a solução é aplicada apenas na fase de terminação. 

Além de estruturas artificiais de sombreamento, soluções baseadas em árvores também têm sido apontadas como alternativa eficiente para reduzir o estresse térmico nos rebanhos.  

Pesquisas da Embrapa Pecuária Sudeste indicam que a introdução de árvores nas áreas de produção contribui para melhorar o conforto térmico dos animais e preservar sua capacidade reprodutiva. 

Uma das estratégias recomendadas é a adoção de sistemas integrados como a ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), que combina atividades agrícolas, pecuárias e florestais na mesma área.  

Além de ampliar a diversificação de renda nas propriedades, o modelo oferece sombra natural e melhora o microclima das pastagens. 

Segundo o pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste Alexandre Rossetto Garcia, o aumento da temperatura corporal desencadeia uma série de efeitos fisiológicos negativos nos bovinos.  

“Quando o animal sente desconforto térmico, ele passa a produzir mais cortisol, hormônio ligado ao estresse, o que reduz o consumo de alimentos e prejudica a produtividade”, informou.  

Isso representa um menor crescimento e redução da eficiência produtiva. Já nas vacas leiteiras, o aumento do consumo de água e da sudorese provoca perda de líquidos e sais minerais importantes para a produção, o que pode afetar a qualidade e o valor comercial do leite. 

Os impactos também se estendem à reprodução. O aumento da temperatura corporal pode comprometer a qualidade do sêmen nos machos e reduzir a qualidade dos ovócitos nas fêmeas, dificultando a fecundação. 

Mesmo quando ocorre a gestação, o embrião pode sofrer com as oscilações térmicas e até morrer precocemente. 

Animais jovens possuem metabolismo mais acelerado e mecanismos de termorregulação menos eficientes, o que aumenta a suscetibilidade às variações de temperatura e o risco de hipertermia. 

“Por isso a oferta de sombra, o acesso contínuo à água de qualidade, ajustes no manejo e o suporte nutricional adequado são apontados como medidas fundamentais para reduzir perdas produtivas e garantir a sustentabilidade da pecuária”, concluiu o médico veterinário.

Fonte: CNN Brasil

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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