Ele herdou parte da fazenda Roncador. Agora decidiu apostar em sua marca de carne

Bloomberg Línea — Na pecuária, o preço da arroba do boi gordo funciona como uma espécie de régua para toda a cadeia, definindo quanto o produtor receberá independentemente de diferenciais na produção.

Mas o empresário Caio Penido vislumbra um outro caminho para crescer, com foco na qualidade da carne e na captura de valor além dos prêmios pagos pela indústria.

Ele cresceu acompanhando o avô na criação e venda de gado e passou anos operando dentro desse modelo dominante, fornecendo animais para grandes frigoríficos, como JBS e Minerva. Nos últimos anos, porém, começou a redesenhar sua atuação ao buscar formas de agregar mais valor dentro da própria cadeia.

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Esse movimento ganhou força com a criação da SouBeef em novembro de 2024, marca de carne do empresário.

Com ela, Penido deixou de atuar apenas como fornecedor de boi para assumir também etapas de processamento e comercialização, com uma estratégia que busca produzir uma carne de alta qualidade e certificada.

“É a integração lavoura-pecuária-floresta, com turismo e audiovisual. Tudo isso em um só lugar”, disse Penido em entrevista à Bloomberg Línea ao resumir o modelo que vem estruturando para as terras que administra em Mato Grosso e Goiás.

“Decidi fazer a minha carne para conseguir agregar valor, mas isso mudou todo o meu tipo de negócio”, disse.

Além das atividades no agro, Penido tem uma produtora audiovisual, a Encruzilhada Filmes.

Na SouBeef, o planejamento da carne começa já no cruzamento de raças como Nelore, Angus e Wagyu. O foco é acessar nichos premium no mercado interno. Há planos também de exportação, especialmente para a Ásia e o Oriente Médio.

Para isso, explica o executivo, uma parceria com uma empresa chinesa poderia ser o caminho para “destravar” esse novo mercado.

Hoje, cerca de 20% da produção já é destinada à marca própria. A operação de sua marca própria ainda não atingiu o breakeven, mas a expectativa é que se torne rentável a partir de 2027.

A SouBeef não divulga dados de faturamento, mas informou que as receitas no ano passado cresceram 281%.

A estratégia comercial da marca está concentrada, neste momento, em São Paulo, com planos de expansão gradual para outros estados, segundo a empresa.

A SouBeef atua com clientes do food service e boutiques de carne, além de parcerias com plataformas digitais como o Raízs, e diz que pretende lançar seu próprio e-commerce em breve. A marca também já atende clientes em Trancoso (BA).

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Penido, que também preside o Instituto Mato-Grossense da Carne (Imac), disse que a expectativa é que, em cerca de três anos, a produção das duas fazendas esteja majoritariamente direcionada à marca própria.

Nos últimos três anos, a Agro Penido e o Grupo SouBeef investiram cerca de R$ 156 milhões nas operações.

Da Roncador à nova estrutura

A estratégia dos negócios de Penido ocorre após a divisão da antiga Fazenda Roncador, no Mato Grosso, que pertencia ao avô da família, Pelerson Penido, e que tinha o título de maior fazenda do país.

A área, de cerca de 153 mil hectares, foi partilhada entre os três irmãos, em um processo que foi concluído em 2024.

Com isso, Caio Penido passou a administrar parte dessas terras e da sua irmã, Eduarda.

Em uma das principais frentes de negócios está a Fazenda Pioneira. Desde 2013, a Agro Penido Ladco, de propriedade de Caio, opera uma joint venture com a SLC Agrícola.

A unidade produz soja, milho, algodão, gergelim e feijão mungo, além de iniciativas de integração lavoura-pecuária.

Inicialmente limitada a cerca de 20 mil hectares, a área foi ampliada com a incorporação de outros 18,7 mil hectares, totalizando 38,7 mil hectares a partir de 2024.

Com duas safras por ano, a fazenda tem a soja como principal cultura, seguida por milho e algodão na segunda safra. A expansão deve continuar, com previsão de aumento da área produtiva para mais de 65 mil hectares até a safra 2027/2028, segundo informações do site da Agro Penido.

Corte de maminha da SouBeef

Parte dos ativos que ficaram sob sua gestão deu origem à Fazenda Darro, em Querência (MT), onde Penido concentra uma área de quase 21 mil hectares. Desse total, cerca de 11,5 mil hectares são destinados à produção agropecuária e o restante é dedicado à conservação.

Na Fazenda Água Viva, localizada em Cocalinho, próximo ao Rio Araguaia, Caio mantém uma operação mais voltada à criação de gado de forma “artesanal”, com foco na sua marca, a SouBeef. A propriedade tem cerca de 5 mil hectares.

O manejo do solo também passou a fazer parte da estratégia. Segundo Penido, a correção é feita principalmente com calcário, insumo que, em parte, ele compra do irmão, além de adubação ajustada conforme análise de fertilidade do solo.

A busca pela escala

Segundo Penido, o volume atual de abates de boi ainda está longe do potencial produtivo das fazendas. Hoje, a média gira em torno de 150 abates por mês, com variações ao longo do ano.

A meta é ampliar esse número para cerca de mil abates mensais, o equivalente a aproximadamente 12 mil animais por ano.

A decisão de criar a SouBeef veio da dificuldade de capturar valor ao vender para frigoríficos, mesmo com mudanças no modelo produtivo, explica o empresário.

Segundo Penido, práticas como intensificação, manejo e certificações não se traduzem necessariamente em melhor remuneração para o produtor. “É muito difícil pra eles [a indústria] remunerarem o produtor [] que tem todas essas práticas”, disse.

Inicialmente, a operação contou com parceiros para desossa e distribuição. Com o tempo, essas etapas foram internalizadas, com a formação de equipe própria e maior controle sobre o produto final.

A mudança alterou a lógica do negócio. Ao deixar de vender apenas o animal e passar a trabalhar com a carne, passou a lidar com o aproveitamento integral da carcaça, incluindo o couro.

“Agora eu tenho que me virar com o boi inteiro”, disse.

Novas frentes de negócio

Além da carne, Penido investe em novas culturas de maior valor agregado, como é o caso do açaí.

A cultura ainda está em fase inicial e enfrenta desafios, como a necessidade de mão de obra especializada e adaptação ao clima da região, conta o empresário.

“Chega a ser 10 vezes mais rentável [do que a soja]”, disse.

Neste ano, foram plantados 5 hectares. A previsão é ampliar para 35 hectares no próximo ano e, posteriormente, chegar a cerca de 200 hectares.

O empresário também aposta no turismo rural e iniciou a construção de um hotel-fazenda na Fazenda Água Viva, com 10 suítes, cuja inauguração está prevista para junho.

Entre os planos, está ainda a aquisição de uma propriedade no interior de São Paulo para criação de cavalos crioulos, além da possibilidade de incluir carne de cordeiro no portfólio da marca no futuro.

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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