ENTRE PESSOAS, PROCESSOS E PROPÓSITO


 

Encerrar um ano é como olhar a cozinha depois do rush: o calor já baixou, o barulho cedeu lugar ao silêncio das panelas e, no ar, ainda paira o aroma de tudo aquilo que foi feito com intensidade. O ano de 2025 nos lembrou mais uma vez que o setor de alimentação e bebidas é um organismo vivo, pulsando entre gente, processos e propósito.

 

Falamos sobre mão de obra e sabemos que esse não é apenas um tema, é o eixo em torno do qual gravitam eficiência operacional, qualidade do serviço, hospitalidade e resultado financeiro. Encontrar, treinar e reter pessoas tornou-se um exercício diário de realismo e criatividade. Vimos salas de entrevista esvaziarem, candidaturas evaporarem, técnicos sem base e talentos ansiosos por crescer, mas ainda sem rota. Aprendemos que sem um plano claro de carreira, sem reconhecimento e um ambiente minimamente saudável, a porta de entrada vira também a de saída. A rotatividade custa caro. Custa recrutamento, treinamento, produtividade, consistência e reputação e o cliente percebe: todo deslize no atendimento nasce de uma equipe desencontrada do seu propósito.

 

A hospitalidade então, reaparece como aquilo que sempre foi: vantagem competitiva real. Num mercado saturado, com ofertas parecidas e preços pressionados, venceu quem tratou cada contato como um momento de construção de marca. O sorriso genuíno, a antecipação das necessidades, a capacidade de escutar e resolver, tudo isso se converteu em fidelidade e indicação. E sim, a tecnologia cresceu, os totens chegaram, os apps ficaram mais rápidos, mas nada substituiu a sensação de ser acolhido por pessoas que se importam. O desafio do ano foi equilibrar o digital com o humano, a automação com a presença. Onde esse equilíbrio aconteceu, a experiência brilhou.

 

Os cardápios digitais foram um capítulo à parte. Eles deram velocidade às mudanças de preço, permitiram ajustar produtos sazonais com um clique e reduziram custos de impressão. Integrados ao PDV, reduziram erros e encurtaram o caminho do pedido ao pagamento. Mas também nos ensinaram que tecnologia, sem desenho de experiência, vira barreira: clientes com baixa familiaridade digital sentiram-se excluídos e a operação mais preocupada com a tela do que com o olhar do convidado perdeu capital emocional. A solução madura foi oferecer caminhos paralelos: digital onde faz sentido, suporte humano onde é necessário e uma curadoria visual que não fosse show room, mas ferramenta de decisão para o cliente.

 

No abastecimento, 2025 consolidou tendências que já vínhamos mapeando: sustentabilidade deixou de ser discurso para virar critério de compra, a rastreabilidade entrou no checklist, o desperdício ganhou nome, sobrenome e KPI. Além disso, a tecnologia finalmente se sentou à mesa da negociação com dados, previsão de demanda e plataformas colaborativas. Compradores que ainda jogavam “no escuro” descobriram o custo oculto da improvisação. Ao mesmo tempo, a logística apertou e quem não planejou lead times pagou com ruptura, descarte e avaliações negativas. A boa notícia é que onde houve método, houve margem: compras orientadas por histórico, acordos transparentes com fornecedores, métricas claras e uma política pragmática de “menos, porém melhor” deram resultado.

 

Sustentabilidade, ESG e embalagens foram mais do que capítulos: foram uma linha mestra. O cliente, cada vez mais consciente, passou a punir excessos de plástico e premiar materiais responsáveis. Plataformas de entrega reforçaram o peso da embalagem na avaliação final: ela protege, comunica valores e, quando bem pensada, reduz devoluções e reclamações. Vimos operações substituírem o discurso, migrando para embalagens recicláveis ou compostáveis e entendemos que ESG não se limita a ambiental: trata também de acesso, diversidade, governança e relações de trabalho honestas. É estratégia que conecta ética à rentabilidade. Quem implantou bem, colheu reputação, preferência e, sim, eficiência.

 

No chão da operação, o inventário saiu do limbo burocrático e ganhou status de pilar financeiro. Nada compromete tanto o CMV quanto estoque mal gerido: contagens imprecisas, datas de validade ignoradas, unidades de medida confusas, entradas e saídas sem lastro. O método PVPS voltou a ser lembrado como o óbvio que salva: primeiro que vence, primeiro que sai.

 

Parece simples e é, desde que alguém cuide. Quando as contagens se tornaram rotina, quando as fichas técnicas deixaram de ser papel bonito para virar prática, quando a produção respeitou gramaturas e rendimentos, a margem apareceu e com ela vem respiro: marketing com investimento, manutenção em dia, caixa financeiro menos ansioso. É a economia do detalhe vencendo a retórica do “depois a gente vê”.

 

No meio de tudo, a pergunta que move todos os investidores do mercado reapareceu: ainda vale a pena empreender no food service? A resposta honesta continuou sendo sim, mas um “sim” adulto, informado, sem romantização. Vale quando se entende que o negócio é feito de gente, números e processos antes de ser feito de pratos. Vale quando se aceita que as primeiras vitórias moram na disciplina, não no viral do fim de semana. Vale quando o empreendedor se olha no espelho e decide se quer cozinhar ou gerir e desenha seu time a partir disso. Vale quando a coragem de começar vem acompanhada da humildade de pedir ajuda e aprender.

 

Se o ano nos deu um lema, talvez tenha sido este: não existe sucesso sem processo. Em cada operação que prosperou, encontramos um trio indissociável: pessoas cuidadas, processos vivos e propósito explícito. As melhores casas que acompanhei profissionalizaram o básico: escala de treinamento contínua, rituais de contagem, revisão de fichas, metas de CMV por categoria, calendário de compras com janelas negociadas, plano de carreira que cabe no bolso, e um pacto silencioso de respeito entre a marca e o time. No salão, isso chegou como hospitalidade sincera; na cozinha, como consistência; na planilha, como resultado.

 

Entraremos em um novo ano com os mesmos desafios, custos voláteis, competição alta, cliente exigente, mas com um ganho inegociável: maturidade. Aprendemos a usar dados sem abdicar da intuição, a automatizar sem desumanizar, a comprar melhor sem baratear o conceito, a desenhar embalagens que protegem o planeta e a reputação, a tratar inventário como ativo e não castigo, a apostar no desenvolvimento das pessoas como o investimento mais rentável do negócio e, sobretudo, aprendemos que “lucro” é, em grande parte, a soma de pequenas fidelidades ao que precisa ser feito todos os dias.

 

Se eu pudesse deixar um brinde de fim de ano a cada gestor, seria uma lembrança simples: muitas vezes o lucro está nas contratações que você acerta, nas compras que você planeja, nos minutos que você dedica a treinar, na embalagem que você escolhe, no estoque que você confere e na gentileza que você pratica. O mercado continuará punindo o improviso e premiando a constância. Que 2026 nos encontre com mais método, mais ética e mais coragem de fazer o básico extraordinariamente bem. Porque, no fim das contas, é isso que transforma uma cozinha barulhenta em uma empresa sustentável: a harmonia entre pessoas, processos e propósito, temperada, todos os dias, com a honra de servir.

 

Obrigado por nos acompanharem ao longo deste ano. Cada edição foi escrita pensando em quem está na linha de frente, empreendendo, formando equipes, ajustando processos, cuidando do caixa e, ainda assim, servindo experiências que marcam. Que as reflexões aqui reunidas ajudem você a transformar rotina em resultado, números em decisões e pessoas em propósito compartilhado.

 

Em 2026, que a constância no básico, a coragem de melhorar um pouco todos os dias e a ética nas escolhas sejam seus maiores diferenciais competitivos. Sigamos juntos, aprendendo, trocando e construindo um food service mais profissional, humano e sustentável.

 

Bom trabalho a todos e um ano novo próspero!

 

 

 

Alexandre Martins Alves

Bacharel em Ciências Econômicas, Pós Graduado em Gestão de Negócios em Alimentação e com MBA em Supply Chain, com mais de 30 anos de experiência nas áreas de Supply Chain, Compras e Logística em empresas multinacionais e nacionais de grande, médio e pequeno porte.
Autor dos livros “Gestão de Processos e Fluxo de Mercadorias”, “Engenharia de Cardápio” e os volumes 1 e 2 do “Gestão de Negócios de Alimentação: Casos e Soluções”, todos editados pela Editora Senac.

Docente no Centro Universitário Senac e na Universidade São Camilo, para as disciplinas de Administração de Compras e Sistemas de Gestão, para o curso de pós-graduação em Gestão de Negócios. Atua como consultor no setor de alimentação e entretenimento, especializado em soluções para a área financeira e administração de compras, estoque, produção e na implantação de sistemas informatizados de gestão, em indústrias alimentícias, restaurantes, bares, lanchonetes, hotéis entre outros.

 


ENTRE PESSOAS, PROCESSOS E PROPÓSITO: O BRILHO SILENCIOSO DE UM ANO NO FOOD SERVICE



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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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