“É doença e não falta de vontade”: médico diz o que perder 47 kg o ensinou

Hoje tenho 47 anos. Durante muito tempo, achei que meu problema era falta de disciplina. Eu já era médico, conhecia os mecanismos metabólicos, entendia a teoria, dominava as diretrizes. Ainda assim, cheguei a pesar 126 quilos.

Mas o número na balança não foi o que mais me marcou. O que realmente me preocupou foi quando a obesidade deixou de ser sobre o espelho e passou a ser sobre cansaço constante, inflamação silenciosa, compulsão alimentar e perda de performance. Minha energia caiu. Minha clareza mental diminuiu. O apetite parecia desproporcional à minha própria vontade.

Eu vivia, na prática, o impacto da resistência insulínica, da fome aumentada, da dificuldade real de controlar a ingestão alimentar. Foi ali que compreendi algo definitivo: a obesidade não é vaidade. É fisiologia alterada.

O dia em que parei de fingir

A grande virada aconteceu por volta dos 33 anos. Não houve cena dramática. Houve lucidez. Eu percebi que, se continuasse naquele caminho, perderia longevidade, performance e autoridade. Falava sobre saúde, mas não estava conseguindo viver plenamente o que ensinava.

O pensamento foi simples e direto: ou eu assumo que isso é uma doença e trato como tal, ou continuo fingindo que é apenas falta de disciplina.

Como médico, viver a obesidade do outro lado gerou um conflito silencioso. Existe culpa. Existe vergonha. Existe a sensação de incoerência. Você sabe o que deveria fazer, mas isso não impede que a desregulação hormonal supere a sua força racional. Foi nessa vivência que aprendi uma das maiores lições da minha prática: o conhecimento não vence a desregulação hormonal. Empatia nasce quando você sente na pele.

No início, cometi o erro clássico do radicalismo. Treinava demais, comia de menos, acreditava que a intensidade extrema sustentaria o processo. O corpo reagiu: metabolismo reduzido, fome aumentada, cortisol elevado. Entendi, então, que a obesidade não se vence com intensidade temporária. Se maneja com constância estratégica.

O processo não foi imediato. Foram cerca de três a quatro anos de tratamento estruturado até atingir meu peso ideal. Hoje peso 79 quilos. Não houve milagre. Houve estratégia, ajuste de rota, acompanhamento e constância.

A obesidade é doença crônica – e exige manejo crônico

Ainda existe resistência em enxergar a obesidade como doença. Ela continua sendo associada à falta de vontade ou fraqueza moral. Mas trata-se de uma condição crônica, assim como diabetes ou hipertensão. Não tem fim. Tem controle.

Quando um paciente tenta emagrecer apenas na força de vontade, o corpo entra em modo de defesa. A leptina cai, a grelina sobe, o gasto energético basal diminui. O organismo interpreta a perda de peso como ameaça e luta biologicamente para recuperar o peso perdido. O reganho não é fraqueza. É adaptação fisiológica.

As medicações, como os análogos de GLP-1, não são milagre. São ferramentas fisiológicas. Reduzem a fome, aumentam a saciedade, melhoram o controle glicêmico e atuam no eixo neuro-hormonal do apetite. Em muitos casos moderados a graves, a remissão sustentada é improvável sem intervenção medicamentosa adequada. Assim como tratamos pressão alta de forma contínua, a obesidade também pode exigir tratamento contínuo.

A medicação isolada não resolve. O manejo sério e sustentável da obesidade se apoia em quatro pilares inegociáveis:

  1. Estratégia nutricional estruturada
  2. Exercício físico inteligente com preservação de massa magra
  3. Terapêutica farmacológica quando indicada
  4. Mentalidade de longo prazo.

Obesidade não é projeto de verão. É manejo crônico.

Hoje, não falo apenas como médico. Falo como alguém que vive o tratamento diariamente há mais de uma década. Eu não “curei” minha obesidade. Eu a controlo. E é isso que me permite energia, saúde, performance e coerência entre o que ensino e o que pratico.

Obesidade não é falha moral. É doença crônica. E existe tratamento.

*Texto escrito pelo médico do esporte Rafael Rivas Pasco (CRM/SC 15495 | RQE 15008), membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte e da Brazil Health

Fonte: CNN Brasil

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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