Bloomberg Línea — Em um momento de condições de crédito apertadas no Brasil, o banco BV tem se apoiado em uma estratégia que combina a expansão dos serviços bancários para pessoa física, o crescimento de novas linhas, como o empréstimo com garantia do veículo, além de maior presença em pontos de venda para manter o seu negócio principal de financiamento a compra de veículos leves usados.
De acordo com o CEO, Gustavo Sousa, essa estratégia tem permitido ao banco aumentar sua carteira de crédito mantendo níveis relativamente saudáveis de inadimplência, o que tem elevado seus patamares de rentabilidade.
O BV encerrou 2025 com um ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) recorrente de 15,3%, um aumento de 2,3 pontos percentuais em relação ao ano anterior. O resultado também representa um ganho em relação ao patamar de 9% que o BV chegou a ter em 2023.
Sousa diz que o BV agora classifica o ROE de 15% como um “piso” e ressalta que esse patamar não é um “destino final” na trajetória de melhoria do resultado do banco.
“A gente tem uma ambição que é aproximar esse ROE a mais de 20%”, disse ele, em entrevista à Bloomberg Línea. “Não é algo para o curto prazo, mas seguramente é o nosso norte.”
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O BV encerrou o ano passado com um lucro recorrente de R$ 1,865 bilhão, seu maior resultado já registrado, o que representa um aumento de 8,3% sobre 2024.
A carteira de crédito ampliada subiu 7,9%, para R$ 97,7 bilhões, impulsionada pelo avanço na categoria de veículos leves usados e em outras frentes, como cartões de crédito, empréstimos com garantia de veículos e financiamentos a outros tipos de automóveis leves e pesados.
Fundado no fim dos anos 1980 pelo grupo Votorantim, da família Ermírio de Moraes, o BV – antes chamado de Banco Votorantim – é controlado desde 2009 em uma sociedade entre a Votorantim Finanças, braço financeiro do grupo, e o Banco do Brasil (BBAS3). Cada um tem 50% do controle acionário.
Segundo Sousa, o banco tem buscado fortalecer o que o seu negócio de “rodas” — o financiamento de veículos —, mas com uma leitura de que crescer nesse mercado depende menos de abrir o apetite de risco e mais de ampliar a presença comercial junto aos lojistas.
O time dedicado a essa cobertura chegou a 1.000 profissionais – 100 a mais do que no ano retrasado – e hoje alcança 26.000 pontos de venda.
“O aumento de produção vem por um trabalho de bater em mais portas, por colocar o time comercial na rua com mais intensidade, e não porque a gente abriu a modelagem”, disse Sousa.
Essa lógica se estende ao segmento de pesados usados, no qual o banco afirma ter chegado à liderança de market share ao final de 2025, com a carteira crescendo 46,8% no ano para R$ 3,3 bilhões.
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Paralelamente, o banco tenta transformar o cliente de financiamento em um usuário mais amplo de seus produtos financeiros e bancários. A ideia é que quem financia um carro pelo BV passe a usar também o seu banco digital para pagamentos, depósitos e cartão de crédito.
As safras mais recentes de financiamento, segundo Sousa, já mostram um consumo maior de produtos por clientes. Os depósitos de pessoas físicas cresceram 74% no ano, e a originação de crédito por canais digitais avançou 45%, para R$ 3,9 bilhões.
Essa estratégia tem permitido ao banco avançar mesmo em um ambiente de juros que exige cautela, apesar das perspectivas de cortes da Selic pelo Banco Central em 2026.
De acordo com o CEO, o banco tem visto uma melhoria da métrica de inadimplência, mas ainda “não a ponto” de abrir a modelagem de concessão de crédito. O BV encerrou o quarto trimestre 2025 com uma taxa de inadimplência de 4,7%, uma queda de 0,1 ponto percentual em relação ao terceiro trimestre.
“A gente entende que esse alívio na taxa de juros pode gerar uma melhora nessas métricas de endividamento. Mas, neste momento, o que a gente está vendo é um apetite conservador”, disse Sousa.
É nesse contexto que o banco tem apostado no empréstimo com garantia de veículo (EGV) como um dos produtos centrais para o momento.
Segundo o CEO, para clientes que carregam dívidas em crédito pessoal ou cartão de crédito com taxas em torno de 8% ao mês, o produto oferece uma alternativa com taxas entre 2% e 2,5% ao mês, usando o veículo quitado como garantia. “Isso é um alívio muito grande de custo financeiro para esse cliente”, afirmou Sousa.
A carteira de EGV cresceu 30,5% em 2025 e, junto com o cartão de crédito, compõe o que o banco chama de “varejo relacional” — a fatia do portfólio voltada a aprofundar o relacionamento com o cliente além do financiamento.
A plataforma de anúncios de veículos NaPista é outra peça dessa estratégia, uma vez que concorre com as líderes Webmotors, que tem o Santander Brasil como sócio, e iCarros, do Itaú.
O banco a vê como um canal para qualificar leads e aproximar compradores e lojistas, oferecendo crédito pré-aprovado ainda dentro da plataforma. “Você já chega lá para comprar o seu carro sabendo que o BV te aprovou, é só fazer o test drive”, resumiu o executivo.
O banco tem buscado investir tanto na expansão da base de lojistas quanto em mídia para atrair compradores, com o objetivo de consolidar o NaPista entre as principais plataformas do segmento.
Olhando para 2026, o plano é continuar avançando nessas frentes, mas mantendo uma expansão do crédito cuidadosa. “Na nossa cabeça, 2026 continua sendo um ano para a gente entrar com cautela nas condições de crédito”, afirmou o CEO.
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