Raízen: os possíveis efeitos para o mercado de crédito e para os fundos

O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen pode gerar volatilidade nos preços de títulos negociados no mercado, além de efeitos também sobre fundos de crédito privado e da cadeia do agronegócio (Fiagros).

Segundo gestores de crédito de grandes casas ouvidos pelo InvestNews, a situação da Raízen já havia sido “precificada”, como se diz no jargão do mercado, nos títulos da companhia – CRAs, debêntures e bonds – dado o quadro de deterioração de sua saúde financeira há alguns meses.

Isso significa que esses ativos vinham sendo negociados com grande desconto em relação ao seu valor de face (o valor original definido na emissão e pago ao investidor no vencimento).

Mas, apesar dessa antecipação dos efeitos da crise da empresa, como credores ainda podem vender e comprar os papéis em plataformas de corretoras, o investidor que apostou na Raízen ainda poderá ver grande volatilidade nos preços de títulos até que a empresa resolva – ou não – a sua situação financeira.

Se muitos investidores tentarem vender o papel, o preço ainda pode cair mais, e essa situação, gerar uma piora mais ampla na percepção de risco por parte de investidores e na demanda por títulos de outras companhias, gerando uma contaminação para o mercado como um todo.

Esse é o efeito considerado mais relevante no mercado de crédito privado porque os CRAs da Raízen estão principalmente nas mãos de investidores de varejo.

Mas, como os títulos – e, sobretudo as debêntures -, estão espalhados em fundos de crédito no mercado brasileiro, casas de investimento que tiverem o papel podem sentir essa desvalorização e serem obrigadas a “marcar” (registrar) uma performance pior – ainda que isso seja marginal.

Segundo dados de janeiro deste ano, Itaú, Banco do Brasil, Absolute e BTG Pactual estavam entre as gestoras e os bancos que possuem (ou detinham) os papéis da Raízen em carteiras.

Conforme as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), gestoras devem deixar públicas as informações das suas carteiras com uma defasagem de no máximo três meses.

Conforme os profissionais ouvidos pelo InvestNews, o que ajuda a dissipar efeitos mais dramáticos da crise da Raízen no momento atual é o fato de que o percentual de patrimônio de fundos alocado em papéis da Raízen é considerado limitado, em quadro que diverge de crises como a da Americanas e a da Light, em que havia maior concentração nas carteiras.

Além disso, como os fundos estão com bastante caixa disponível nesse momento – quer dizer, com investimentos em títulos públicos de alta liquidez –, o efeito tende a ser moderado e se diluir com o tempo, mesmo que os investidores decidam resgatar mais recursos em um contexto de piora da percepção de risco e de um desempenho pior dos fundos.

Entre os Fiagros, a gestora mais relevante com posição na empresa é a KNCA11 (Kinea Crédito Agro), um veículo mais diversificado, mas que prioriza grandes empresas. A exposição é de 1% do patrimônio. O fundo adquiriu um CRA com vencimento em 2032 no valor de R$ 57,9 milhões; hoje, o valor é de R$ 22 milhões.

Se os preços dos títulos da Raízen caírem, as taxas dos papéis sobe – essa é a dinâmica da renda fixa. E aí, pode até parecer que comprar o papel é um bom negócio, já que estará pagando uma remuneração maior.

Mas é preciso dar um passo atrás porque cada movimento nesse sentido significa que o risco também está ficando proporcionalmente maior.

Quem decide entrar nesses momentos no mercado à espera de uma remuneração maior pode enfrentar um cenário ainda mais grave caso a companhia não consiga se reestruturar em 90 dias, o prazo dado dentro da recuperação extrajudicial.

Nesse momento, segundo os gestores ouvidos, os fundos têm menos interesse em vender os títulos pela expectativa de que haverá chance de alguma recuperação de uma parte do investimento caso o processo de reestruturação da empresa corra bem.

Fonte: Invest News

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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