projeto busca rastrear o algodão de 1 milhão de peças de roupa

Bloomberg Línea — O algodão utilizado em uma única camiseta pode nascer no Mato Grosso, combinar fibras da Bahia ou de Goiás, virar fio no Nordeste, se transformar em tecido em outro estado e só então chegar a uma confecção antes de aparecer nas araras de uma loja.

Mapear esse caminho – e torná-lo visível ao consumidor – é o que o programa de rastreabilidade SouABR tem procurado fazer desde 2021, em um esforço para garantir que produtores rurais e intermediários seguiram boas práticas sociais, trabalhistas e ambientais ao longo da cadeia.

Após quatro anos de testes e mais de 640.000 peças rastreadas, a iniciativa da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) entra agora em uma nova fase de expansão.

A meta é atingir 1 milhão de peças rastreadas até o fim de 2026, algo que dependerá menos de tecnologia do que de adesão de novas marcas ao projeto.

“Vai depender do compromisso da varejista. Mas com mais uma varejista, a gente já bateria um milhão de peças”, disse Silmara Ferraresi, gestora do movimento Sou de Algodão e diretora de relações institucionais da Abrapa, em entrevista à Bloomberg Línea.

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A iniciativa nasceu fruto do movimento Sou de Algodão, um programa da Abrapa para incentivar o uso do algodão brasileiro. O objetivo é conectar e rastrear a cadeia do algodão como um todo, passando pela produção nas fazendas à fiação e ao processo de costura que abastece grandes varejistas. Marcas como Farm, Riachuelo e C&A estão entre as que já participaram da iniciativa.

Em 2025, o programa registrou seu ano de maior tração, com 319.647 peças rastreáveis produzidas e organizou as informações em uma plataforma digital – o consumidor pode acessar a cadeia responsável por cada peça a partir de um QR Code na etiqueta.

Durante o período de testes, o sistema buscou consolidar uma base de dados até então inédita sobre a cadeia produtiva, segundo Ferraresi.

“Quando rastreamos uma peça, às vezes encontramos algodão vindo de três ou quatro estados. A produção passa por diferentes etapas e pode cruzar o Brasil até chegar à roupa”, disse Ferraresi.

Uma cadeia ainda difícil de rastrear

O Brasil é o terceiro maior produtor de algodão do mundo, atrás apenas da China e da Índia, com uma safra que deve atingir 4,25 milhões de toneladas em 2025/2026, segundo dados da Abrapa.

A maior parte da produção (3,16 toneladas) é exportada, o que faz do país o maior exportador mundial da matéria-prima. A China é a maior compradora do produto brasileiro (29%), seguida de Bangladesh (15%) e Turquia (13%).

A rastreabilidade do algodão é complexa e muitas vezes mais difícil de ser realizada. Diferentemente de alimentos, cuja produção costuma envolver poucos elos até chegar ao consumidor, a fibra passa por uma sequência de transformações industriais antes de virar roupa.

Primeiro vem a produção agrícola e o beneficiamento nas fazendas. Depois, amostras da fibra são enviadas para laboratórios que analisam qualidade e características físicas. Em seguida, os fardos são vendidos para fiações, onde o algodão é transformado em fio.

O fio então é convertido em tecido ou malha, que só então segue para as confecções responsáveis que produzem a peça final.

“Rastrear fibra natural é muito diferente de rastrear carne ou hortaliça, por exemplo. A cadeia do algodão é longa e envolve muitos elos que precisam compartilhar informações”, disse a executiva responsável pelo projeto.

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O programa SouABR tenta mapear cada uma dessas etapas. A plataforma registra dados desde o produtor rural até a loja. O consumidor pode acessar essas informações por meio de um QR Code na etiqueta da roupa, que revela o caminho da fibra ao longo da cadeia produtiva, da fazenda certificada até a peça final.

Do campo à moda

O projeto de rastreabilidade se apoia em iniciativas anteriores desenvolvidas pela Abrapa para estruturar e certificar a produção de algodão no país.

Desde 2004, o setor trabalha com sistemas de identificação de fardos de algodão produzidos no Brasil. Em 2012, foi criado o Algodão Brasileiro Responsável (ABR), programa que certifica práticas socioambientais nas fazendas produtoras.

Com o intuito de aproximar a cadeia produtiva da indústria da moda nasceu o movimento Sou de Algodão.

“Quando lançamos o movimento, a ideia era falar não só com a cadeia têxtil, mas também com o consumidor. Queríamos mostrar os atributos do algodão e convidar toda a cadeia a construir uma rastreabilidade ponta a ponta”, disse Ferraresi.

Desfile Sou de Algodão na SPFW N60

A construção da plataforma começou em 2019 e envolveu empresas da indústria e do varejo que ajudaram a desenhar o modelo de rastreabilidade, conta

As primeiras coleções rastreadas chegaram ao mercado em 2021. Uma das estratégias utilizadas na época que se perpetua até hoje é pensar em coleções com material certificado nas passarelas, como a Casa de Criadores, de moda autoral, para alcançar novos públicos.

“Às vezes são muitas pessoas envolvidas. Era isso que a gente queria mostrar também na passarela: que fazer rastreabilidade não é só dizer a origem ou a localização. Estamos falando de pessoas”, disse.

O desafio da cadeia

Apesar do avanço, ampliar a escala do projeto ainda depende de mudanças na indústria têxtil, explica a executiva. Isso porque a rastreabilidade só funciona quando todos os participantes da cadeia registram dados na plataforma.

“Não basta a varejista querer a rastreabilidade. Ela precisa convencer toda a sua cadeia de valor a participar: a confecção, a tecelagem, a fiação. Se um elo não registra as informações, a rastreabilidade da peça se perde”, explica Ferraresi.

Além disso, empresas precisam adaptar processos produtivos para garantir que utilizem apenas algodão certificado nas peças rastreadas – o que tende a aumentar os custos para produzir uma única peça.

“Uma fiação que entra no programa precisa segregar fardos certificados, registrar número por número na plataforma e acompanhar todo o processo. Isso exige adaptação e tem custo dentro da empresa.”

Apesar desse esforço, peças rastreadas geralmente são vendidas pelo mesmo preço de produtos convencionais, disse Ferraresi.

Isso ocorre porque o consumidor final ainda tem dificuldade em reconhecer o valor adicional de uma peça com origem rastreada.

Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta a crescente concorrência de produtos vendidas por lojas online chinesas no mercado, cujos fornecedores produzem muitas peças com fibras sintéticas e tem processos produtivos de menor custo – o que resulta em produtos significativamente mais baratos.

“O sintético é o nosso maior concorrente e, na maioria das vezes, custa metade do que o algodão, o que é um grande desafio para competir”, disse.

Futuro do projeto

Em 2025, participaram do programa SouABR 110 produtores de algodão e 168 fazendas, responsáveis por 50.095 fardos rastreados na plataforma.

O sistema também envolveu fiações, tecelagens, malharias e confecções que registraram dados sobre cada etapa do processo produtivo.

Entre as marcas e varejistas que tiveram operações dentro do projeto-piloto estiveram empresas como Calvin Klein, C&A, Döhler, Dudalina e Almagrino.

A iniciativa agora entra em uma nova fase, com a expectativa de ampliar a participação de empresas da cadeia nos próximos anos.

Para Silmara, os números refletem o amadurecimento do projeto.

A iniciativa passa a operar com uma política formal de adesão paga a partir de julho de 2026, estabelecendo critérios e responsabilidades para empresas participantes.

Segundo a política de adesão do programa compartilhada com a Bloomberg Línea, a anuidade varia conforme o porte da empresa: R$ 1.200 para microempreendedores individuais (MEI), R$ 6.000 para microempresas (ME) e R$ 12.000 para empresas de pequeno porte (EPP).

Para as varejistas, os custos variam conforme a quantidade de peças rastreadas. A anuidade começa em R$ 77 mil para volumes de até 50 mil peças e pode chegar a cerca de R$ 2,5 milhões para empresas que rastreiem até 50 milhões de peças.

Além disso, há uma taxa única de onboarding para utilizar a plataforma que vai de R$ 1.875 para MEIs a R$ 7.500 para empresas maiores.

O modelo busca criar uma estrutura financeira para sustentar o programa – até então financiado pela Abrapa e pelo movimento Sou de Algodão.

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Bloomberglinea

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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