As incertezas no cenário externo agravadas pelo conflito no Oriente Médio elevaram o risco de inflação à frente e fizeram com que alguns bancos e casas de investimento revissem a projeção de corte da taxa básica de juros, a Selic. Se, em janeiro, a expectativa da maioria era de que o início de cortes seria em março, de 0,50 ponto percentual, agora as projeções passaram a considerar um corte menor, de 0,25 p.p., ou até de manutenção.
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Incertezas reduzem magnitude do corte da Selic
Entre as instituições que revisaram a magnitude de corte, estão o JP Morgan, Bank of America (BofA), Itaú BBA, ASA e Banco Pine.
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Elas citam a incerteza elevada e o balanço de riscos menos favorável associado à alta do petróleo, que passou de US$ 72 por barril para uma média de US$ 103.
O BofA sustenta a projeção baseado nos efeitos da política monetária restritiva para validar o corte. Mas, com os riscos de alta no petróleo devido à guerra, o tamanho deste corte seria reduzido.
O JP Morgan usa a expressão “incertezas significativas” para falar da duração e magnitude dos efeitos da guerra sobre os preços globais e sobre o real brasileiro. A instituição diz que o Banco Central deve optar pelo corte de 0,25 p.p. para manter o compromisso sinalizado na reunião anterior, de iniciar a redução do juro, mas sem abrir mão da necessidade de mais dados antes de seguir com maior firmeza no plano.
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“Embora choques externos possam produzir efeitos secundários na economia brasileira, seus contornos só se tornarão claros com o tempo e os dados, o que torna mais provável que o Banco Central reforce a dependência de dados nas decisões futuras, e mantenha um corte de 0,25 p.p”, diz o relatório.
Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, avalia que a estimativa de inflação no horizonte relevante (até o terceiro trimestre de 2027), deve subir de 3,2% para 3,4%. “Em nossa avaliação, essa piora não inviabiliza o início da flexibilização, mas, com projeções no limiar do que seria aceitável, a conjuntura requer um ajuste mais comedido, de 25 p.b”, afirma, em relatório.
Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine, também diz que a desaceleração da atividade econômica aumentou a probabilidade de o Copom ser mais cauteloso e cortar apenas 0,25 p.p., apesar de ver espaço para um corte mais amplo, de 0,50 p.p.
O ASA mudou a projeção de inflação e corte de juro pelo risco da alta das commodities energéticas, em especial do petróleo. “Ainda que o BC tenda a olhar para a curva da commodity e não apenas para o spot, a elevação recente dos preços amplia os riscos para a inflação doméstica, tanto de forma direta, via combustíveis, quanto indireta, por eventuais efeitos secundários sobre expectativas e preços administrados”, afirma a nota.
A estimativa do ASA é de inflação a 3,6% no horizonte relevante, longe do centro da meta. “Esse deslocamento, por si só, já reforça a conveniência de um início de ciclo mais parcimonioso”, diz a nota.
José Alfaix, economista da Rio Bravo, destaca que o cenário doméstico, por si só, não justificaria tamanha cautela. “O Copom chega a esta quarta-feira num cenário em que as condições internas ainda comportariam afrouxamento gradual. O problema é que a geopolítica não pede licença. Um corte menor, de 0,25 ponto percentual, parece o desfecho mais provável”, afirma.
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Cenário adverso fará Copom manter juro em 15%
Já a XP vê “o copo meio vazio” na leitura de cenários. A instituição reviu a projeção de corte de 0,50 p.p. da Selic e, agora, estima que o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá manter a taxa básica de juros como está, em 15%.
Em relatório assinado pelo economista Caio Megale, há uma piora no quadro de inflação, e não somente devido à guerra. Ele cita os indicadores de janeiro e fevereiro que apontam aceleração da atividade econômica, após queda nos números do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2025. Megale afirma que o mercado de trabalho segue aquecido, e o consumo das famílias ainda demonstra força na demanda interna.
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Os dados do IPCA, que mede a inflação oficial do país, também entram na análise do Megale, já que indicam uma inflação acima da meta na medida dos núcleos, interrompendo a queda dos últimos meses. Muito embora os casos de recuperações judiciais das empresas estejam aumentando e a taxa de câmbio esteja atuando como um “amortecedor” na alta dos preços do petróleo, Megale ainda projeta que o Copom deverá manter os juros inalterados, até que o quadro amplo se estabilize.
“Acreditamos que o Copom manterá a taxa Selic em 15,00% nesta semana. Nossa projeção anterior indicava um corte de 0,50 p.p.. O Comitê poderia optar por uma redução de menor magnitude (0,25 p.p.). Contudo, em nossa avaliação, dado o nível elevado da taxa Selic, esse pequeno ajuste faria pouca diferença para a economia e poderia transmitir um sinal menos claro aos mercados. Acreditamos que, se o Copom não estiver confiante para cortar a taxa de juros em 0,50 p.p., é melhor deixá-la inalterada e fazê-lo com mais embasamento em abril”, afirma o economista, em relatório.
Nem todos descartam corte de 0,50 p.p.
Apesar das mudanças de cenário, há quem mantenha a expectativa de corte em 0,50 p.p. Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, afirma que reconhece o cenário externo adverso, mas não vê motivo para o corte de 0,25 p.p. “Achamos que há espaço para corte de 0,50 p.p. e não será 0,25 p.p. a mais ou a menos que irá mudar o cenário”, avalia.
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A Austin ainda não revisou a taxa terminal, e projeta Selic ao fim de 2025 em 11,50%. Segundo Sartori, a leitura do cenário poderá ser modificada após a divulgação do teor do comunicado.
A Warren Investimentos segue a mesma linha. A expectativa de corte de 0,50 p.p. se manteve, apesar da probabilidade de um Copom mais conservador.
A casa defende que o Banco Central vai considerar os efeitos restritivos da política monetária, e que há margem para o início de corte e, caso o cenário mais negativo se materialize, o BC poderá suspender a calibragem de juros. Mas, enquanto nada se confirma, a Warren segue projetando cortes seguidos de 0,50 p.p. até uma Selic terminal em 12%.
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| Projeção de corte de juros e Selic ao fim de 2026 | ||||
| Corte (p.p.) | Selic ao fim de 2026 (%) | Magnitude | Revisou | |
| XP | 0,00 | 13,00 | 200 | sim |
| ASA | 0,25 | 12,00 | 300 | sim |
| BofA | 0,25 | 11,75 | 325 | sim |
| C6 | 0,25 | 12,50 | 250 | não |
| Forum | 0,25 | 12,50 | 300 | sim |
| G5 Partners | 0,25 | 12,50 | 250 | sim |
| Itaú BBA | 0,25 | 12,25 | 275 | sim |
| JP Morgan | 0,25 | 11,75 | 325 | sim |
| Pine | 0,25 | 11,50 | 350 | sim |
| Polo Capital | 0,25 | 13,00 | 200 | sim |
| Suno | 0,25 | 12,50 | 250 | sim |
| Austin Rating | 0,50 | 11,50 | 350 | não |
| Warren | 0,50 | 12,00 | 300 | não |
Fonte: Info Money



