A “mãozinha” de Trump para a moda de segunda mão

O presidente Donald Trump, que já chegou a definir o aquecimento global como “uma das maiores fraudes de todos os tempos”, pode estar contribuindo para a construção de um futuro menos dependente dos combustíveis fósseis, aquele setor que tanto quer proteger. Ao menos na indústria da moda de luxo.

Se, por um lado, o tarifaço da Casa Branca inibe o apetite dos consumidores pelas novidades das grifes mais sofisticadas; por outro, a hipertaxação está se revelando uma impulsionadora do mercado de roupas, sapatos e acessórios usados — o que tem feito estilistas, empresários e investidores comprometidos com a moda responsável sorrir de orelha a orelha.

Estudo do The Budget Lab, da Universidade Yale, é revelador do impacto dos novos tributos. No curto prazo, os preços dos vestuários e calçados devem subir de 65% a 87%, respectivamente. Para escapar do aumento, os americanos passam a olhar com menos preconceito para o second hand — o que era tendência apenas entre os mais jovens se estende agora às outras gerações. E, sendo os Estados Unidos o maior consumidor de moda do planeta, a mudança de comportamento acaba por repercutir no mundo todo.

“As tarifas vão afetar diretamente a balança entre oferta e demanda mundial. Hoje, em marcas de bastante exclusividade como Hermès, a procura por bolsas é muito superior à oferta do mercado”, diz Lílian Marques, CEO e fundadora da Front Row, resale de itens de alto luxo, em conversa com o NeoFeed. “Com as novas taxas, esse ‘problema’ só deve se agravar, o que faz com que os consumidores procurem por seus itens em outros meios.”

Já está acontecendo. Entre janeiro e o fim de março, o número de downloads de aplicativos de nove empresas de revenda, como eBay, OfferUp, Poshmark, Mercari, Craigslist, Depop, ThredUp, TheRealReal e Vinted, cresceu 3%, o primeiro ganho trimestral em três anos, mostra levantamento recente da Sensor Tower, consultoria americana de inteligência de mercado.

A TheRealReal, o maior marketplace de produtos second hand de luxo do mundo, cujas as ações são negociadas na Nasdaq, apresentou quatro trimestres seguidos de ganhos em vendas em 2024. No ano, a companhia atingiu uma receita de US$ 600 milhões, avanço de 9% na comparação com 2023. No primeiro trimestre deste ano, os valores chegaram a US$ 160 milhões, acima da expectativa do mercado.

No relatório de resultados da companhia, a CEO Rati Levesque foi taxativa: os próximos meses serão ainda mais produtivos. “Cumprimos marcos importantes em 2024, incluindo Ebtida ajustado positivo e fluxo de caixa livre positivo no ano inteiro — e isso é apenas o começo”, diz Levesque, no documento. “Seguimos com nosso plano de crescimento para destravar a oferta e impulsionar a eficiência operacional.”

Conforme outra pesquisa, essa do Boston Consulting Group (BCG), realizada em 2024, a moda de segunda mão deve crescer de 15% a 20% até 2030. Confirmadas as previsões, em cinco anos, globalmente, os usados estão previstos valer mais do que a indústria de fast-fashion, avaliada hoje em quase US$ 150 bilhões, informam os analistas da Fortune Business Insight.

Na semana de moda de Londres, em 2024, a Oxfam lembrou a importância da modo circular (Foto: oxfam.org)

A mudança do ecossistema fashion em direção ao second hand já vinha em curso, antes da guerra de tarifas de Trump. A moda circular é um dos eixos fundamentais do futuro da moda. E, como nota Lilian, os consumidores estão cada vez mais preocupados com a origem e o destino de seus guarda-roupas.

No Brasil, gigantes como Renner, Arezzo e a nativa digital Shop2gether também investem grande parte de seus esforços na moda circular. A Renner, pioneira nesse movimento, tem até um fundo de corporate venture capital (CVC) que foca em apoiar o crescimento de startups focadas em projetos sustentáveis para o varejo. Seu primeiro investimento foi realizado no ano passado.

No Reino Unido, especialmente em Londres, o incentivo pela moda circular também é nítido. As últimas edições da semana de moda têm trazido cada vez mais apelo para a causa, com desfiles inteiros realizados apenas com roupas de segunda mão.

Em 2024, a Oxfam, coletivo de ONGs internacionais, abriu o evento com looks estilizados por Bay Garnett, que levavam apenas peças “pre-loved“, como o meio gosta de chamá-las.

A transformação da indústria da moda se faz urgente. O setor sempre operou segundo a filosofia do “crescimento implacável e infinito, em um mundo de recursos finitos”, como define Kenneth Pucker, ex-COO da Timberland, em artigo para a Harvard Business Review.

Com uma cadeia de suprimentos longa e fragmentada, pautada pela produção exagerada e o consumo perdulário, a moda responde por 20% da poluição industrial das águas e quase 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, ficando atrás apenas das companhias petrolíferas.

Com a popularização do movimento fast fashion, a partir da década de 1990, o tempo das coleções diminuiu drasticamente — algumas marcas chegam a fazer até 24 lançamentos por ano.

Não só compramos 60% mais roupas do que no início dos anos 2000, como passamos a nos livrar delas com mais rapidez. Cerca de 60% de nosso guarda-roupa é descartado com menos de um ano de uso — um desperdício anual de US$ 500 bilhões. Globalmente, os consumidores repetem uma peça do fast fashion apenas cinco vezes antes de descartá-la. É impossível continuar do jeito que está.



Fonte: Neo Feed

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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