Na Ambev, retomada de liderança em cerveja premium reflete ambidestria, diz CFO

Bloomberg Línea — Ao longo dos últimos trimestres e anos, a Ambev tem promovido uma transformação gradual do seu portfólio de cervejas, muito visível para consumidores em bares, restaurantes, supermercados e plataformas de delivery.

Marcas classificadas como premium ou super premium, como Corona, Stella Artois, Original, Spaten e Budweiser, ganharam espaço não só nos cardápios e nas gôndolas como nas campanhas de marketing, principalmente em mercados de renda média mais elevada, como nos estados do Sudeste e do Sul.

Os frutos dessa estratégia têm se refletido nos resultados trimestrais, a tal ponto que um importante milestone acaba de ser atingido no mais recente, divulgado nesta quinta-feira (30): depois de dez anos, a Ambev voltou a liderar as categorias premium e super premium com quase 50% de market share, segundo suas estimativas. A liderança até então estava com a Heineken.

“Nós temos falado que precisamos ser uma companhia ambidestra, que tem a capacidade de fazer mais de uma coisa bem. É o jogo do ‘and’: eu faço isso e também faço aquilo”, disse o Vice-Presidente Financeiro e de RI da Ambev, Guilherme Fleury, em entrevista à Bloomberg Línea.

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“A combinação da ambidestria, do cuidado ao colocar preço com a ‘premiunização’ do nosso portfólio, com a disciplina diária de custos levou ao resultado de crescimento de Ebitda que surpreendeu positivamente o mercado”, afirmou o executivo sobre a métrica financeira no trimestre (veja mais abaixo).

Segundo ele, a retomada da liderança “tem conexão direta com o nosso jogo de portfólio. Nós acreditamos que, dada a complexidade da categoria e os diferentes perfis de consumidores e de paladares, você aumenta as chances de sair vencedor dessa disputa se tiver um portfólio de produtos complementares.”

As vendas de cerveja do segmento premium subiram 15% no trimestre na base anual de comparação, com impulso das marcas Original, Stella Artois e Corona. Foi o 18º trimestre consecutivo de crescimento nessa base.

Outras categorias que refletem uma tendência estrutural, na avaliação da Ambev, mais uma vez voltaram a mostrar expansão em dois dígitos nas vendas, com ajuda da base de comparação mais baixa.

O portfólio denominado balanced choices – escolhas com equilíbrio, em tradução livre -, de cervejas zero álcool, com menos calorias e sem glúten, cresceu 65% em vendas de julho a setembro versus o mesmo período de 2024. O volume de Stella Pure Gold dobrou em um ano, e o de Michelob Ultra avançou 80%.

Ao se referir ao avanço nas categorias premium e super premium, o executivo destacou uma mensagem transmitida na call de resultados com analistas no dia de ontem: “a Ambev lidera onde existe crescimento em cervejas”.

Como parte da estratégia de diversificação do portfólio, a Ambev começou nas últimas semanas a introduzir uma nova categoria de cervejas no Brasil, com sabor, em contraponto ao amargor de marcas como Spaten.

A marca escolhida é a Flying Fish, originária da África do Sul, onde é comercializada com há mais de uma década pela AB InBev “com sucesso”.

“É uma bebida mais leve e um pouco doce, com um toque de limão refrescante, que lembra uma caipirinha. O segmento de cerveja saborizada tem crescido em outros mercados, em que chega a representar 3% ou mais do mercado.”

Segundo Fleury, que assumiu como CFO em abril depois de cinco anos como VP Global Financeiro de Fusões e Aquisições na AB InBev, a busca da citada ambidestria se reflete na forma como a companhia executa a sua estratégia.

“O crescimento não acontece ‘da noite para o dia’. Você precisa ter informações do cenário macro, do consumidor, de tendências… e com base em tudo isso fazemos apostas direcionadas no que entendemos que vai ser o crescimento do segmento de cervejas.”

‘Bola de cristal’ de tendências

Trata-se de uma aposta direcional que se mostra mais assertiva diante de informações coletadas sobre tendências e comportamento do consumidor em mercados mais maduros tanto da Ambev, como o caso do Canadá, como da controladora AB InBev, maior grupo de cervejas do mundo.

“É quase como se fosse uma bola de cristal que antecipa o que vai acontecer.”

Segundo ele, a Ambev sempre foi conhecida como uma empresa com muita disciplina, que toma decisões organizacionais muito claras voltadas a resultados.

“Em momentos de volatilidade, a empresa consegue mostrar a diferença de saber exatamente como atua no mercado, com a força de suas marcas e atenta às alavancas que possui”, completou.

Uma delas é chamada de revenue management, ou gestão de receita, que é um mix de preço e de categorias ou subcategorias de cervejas.

Segundo o CFO, medidas tomadas no segundo trimestre se mostraram mais relevantes no terceiro, encerrado em setembro.

“Nós falamos muito claramente ao mercado [no segundo trimestre] que estávamos mudando o calendário de preços da Ambev, ou seja, antecipando reajustes em relação a uma prática de anos anteriores porque sabíamos que viria uma pressão de custos no terceiro e no quarto trimestres”, disse o executivo.

A antecipação dos reajustes resultou em ganho de competitividade no terceiro trimestre, período em que o principal concorrente – a Heineken – promoveu o seu aumento de preços.

“Ganhamos share depois que houve uma acomodação de preços da indústria, porque a nossa performance foi melhor”, disse o executivo.

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O aumento das vendas de marcas com maior valor agregado ajudou a compensar a queda mais ampla da Ambev – e da própria indústria como um todo no país – no volume vendido na vertical de negócios de cervejas no Brasil.

A retração de 7,7% no volume no terceiro trimestre na base anual se deu sob efeito – pelo segundo período seguido – do inverno com temperaturas muito mais baixas do que em anos anteriores no Sudeste e no Sul e também da menor renda disponível para consumo nos estados das regiões Nordeste e Norte.

Essa queda se deu principalmente com as cervejas dos segmentos chamados core e core plus, que incluem marcas consagradas como Brahma, Skol e Antarctica e que caíram “dois dígitos baixos” no período.

O resultado trimestral melhor que o esperado, por outro lado, contou também com o controle de despesas para que fosse concretizado.

No terceiro trimestre, as despesas gerais e administrativas (SG&A) e os custos dos bens vendidos (COGS) ficaram abaixo das estimativas de mercado no segmento de cervejas no Brasil, o que ajudou a explicar um Ebitda (métrica de geração de caixa operacional) da empresa acima do projetado por analistas, em R$ 7,059 bilhões.

“No segundo trimestre, nós tivemos um efeito relevante decorrente da simplificação do nosso portfólio em SKUs, em formatos e packs. Reduzimos o tail, ou seja, aqueles produtos muito pequenos que representavam pouco [em vendas]“, disse.

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Desde então, a Ambev passou a executar essa medida em conjunto com as áreas industrial e de suprimentos em busca de adequar a produção e obter ganhos de eficiência, o que se refletiu nas despesas no terceiro trimestre, de acordo com o CFO. “Nós simplificamos toda a nossa cadeia.”

Segundo ele, portanto, trata-se mais de efeitos de processos do que de medidas isoladas, com foco principalmente na operação e na distribuição.

As despesas com vendas e marketing, por sua vez, tiveram até um ligeiro aumento em relação às receitas diante de sua importância estratégica.

O desafio para o management é convencer investidores e analistas de que os resultados são consistentes com uma trajetória de geração de valor de longo prazo.

As ações da Ambev (ABEV3) encerraram a sessão na quinta-feira com ganho de 4,66% depois da divulgação do resultado trimestral e do anúncio de um programa de recompra de R$ 2,5 bilhões. No ano, no entanto, a alta acumulada é da ordem de 8%, abaixo do ganho de quase 25% do Ibovespa.

Para analistas do Itaú BBA e do BTG Pactual, em relatórios sobre o resultado, os múltiplos de 12,5x e 13,0x o P/L de 2026 (estimado), respectivamente, são justos para a companhia no seu momento atual.

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Ismael Martins de Souza Costa Xavier

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